CRUA trouxe ao Bons Sons 2026 uma tradição que se recusa a ficar parada
A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.
Redação PORTA B

CRUA Desafia o Passado e Redefine a Música de Raiz em Cem Soldos
O coletivo portuense CRUA marcou a terceira jornada do Bons Sons 2026 com uma atuação que subverteu a percepção da música tradicional portuguesa, apresentando uma sonoridade que é simultaneamente ancestral e profundamente contemporânea. Em Cem Soldos, as sete mulheres urbanas que compõem o grupo adicionaram uma textura vibrante à tarde de 8 de agosto, seguindo a abertura mais contemplativa da cantora Lisa Sereno. A sua performance foi um convite a olhar para as raízes sem qualquer desejo de estagnação, redefinindo o que significa herdar e reinventar.
A Reinvenção da Herança Oral
O projeto CRUA emerge da cidade do Porto, concebido por um septeto feminino que se propõe a explorar a música de transmissão oral, mas com um olhar firmemente voltado para o presente. Longe de qualquer purismo museológico, o grupo constrói um universo onde a tradição e a contemporaneidade se encontram em pé de igualdade, sem hierarquias que limitem a expressão artística. Esta abordagem não só respeita as origens, como lhes confere uma vitalidade renovada, demonstrando que a cultura popular é matéria viva e em constante mutação.
No epicentro desta identidade sonora encontra-se o adufe, um instrumento de percussão que, nas mãos de CRUA, transcende a sua função habitual. O adufe não é apenas um acompanhamento rítmico; ele assume um papel de condutor, pulsando nas profundezas das raízes populares e orientando muitos dos momentos cruciais da atuação. É através das suas batidas que as canções ganham uma cadência que, embora evocativa do passado, ressoa com uma energia inegavelmente atual.
Vozes Urbanas para Ecos Ancestrais
A forma como CRUA se apropria da tradição é um dos pilares da sua proposta artística. Longe de uma mera repetição de repertórios, o coletivo transforma-os através de arranjos inovadores, da polifonia das suas vozes e de temas que tecem a ponte entre canções passadas e criações originais. Este diálogo entre o antigo e o novo resulta numa sonoridade rica e multifacetada, que honra as suas fontes enquanto desbrava novos caminhos interpretativos.
A presença em palco das sete mulheres urbanas de CRUA infunde na performance uma dimensão adicional, intrinsecamente ligada a uma perspetiva feminista e contemporânea. Esta visão não se manifesta através de discursos explícitos, mas sim na subtileza das suas escolhas: no repertório selecionado, na forma autêntica como o reinterpretam e na própria decisão de ocupar um espaço musical que, historicamente, tem sido associado à transmissão comunitária. O adufe, com as suas batidas secas e cadenciadas, transforma-se quase numa entidade autónoma, catalisando um diálogo expressivo entre vozes, corpos e outros instrumentos.
Perspetiva
A atuação de CRUA no Bons Sons 2026 sublinhou uma verdade fundamental sobre a cultura e a identidade portuguesa: recuperar uma tradição não implica necessariamente a sua imitação. Pelo contrário, pode significar questioná-la, transformá-la e reintroduzi-la no presente através de novas vozes e perspetivas. O coletivo portuense oferece um exemplo vibrante de como as memórias transmitidas de geração em geração podem ganhar uma vida renovada – uma vida mais urbana, mais livre e, acima de tudo, mais “CRUA”, ressoando com a complexidade e a vivacidade do Portugal contemporâneo. O seu trabalho é um testemunho da capacidade da música de raiz de evoluir, mantendo-se relevante e desafiadora num panorama cultural em constante mudança.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 8 de agosto de 2026