O Mau Olhado trouxe um lado mais inquieto ao segundo capítulo do Bons Sons 2026
A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.
Redação PORTA B

O Mau Olhado: A Inquietude Enigmática que Redefiniu a Noite em Cem Soldos
Cem Soldos testemunhou uma reviravolta atmosférica no segundo dia do Bons Sons 2026, com a atuação d'O Mau Olhado a mergulhar o público numa experiência sonora singular. Liderado por João Cardoso, o projeto introduziu uma camada de inquietação e mistério ao festival, desafiando as convenções e convidando à descoberta. O concerto marcou uma mudança de temperatura que deixou uma impressão duradoura.
Uma Mudança de Registo no Coração do Festival
O início do dia no Bons Sons 2026 foi pautado pela serenidade e delicadeza trazidas por Rita Cortezão, que envolveu Cem Soldos numa atmosfera calma. Contudo, a entrada em palco d'O Mau Olhado alterou drasticamente o panorama musical, inaugurando uma fase de contornos mais inquietos e uma personalidade sonora que se impôs sem pedir permissão. Este contraste evidenciou a diversidade que o festival se propõe a oferecer anualmente.
João Cardoso e o seu projeto não se preocuparam em facilitar o caminho aos ouvintes menos familiarizados, optando por uma abordagem mais desafiante. Em vez de entregar tudo de imediato, a banda preferiu deixar pistas e construir um ambiente, conduzindo o público por uma sonoridade complexa. Esta estratégia revelou uma maturidade artística que se recusou a ser previsível, criando uma atmosfera de expectativa e imersão.
A Arquitetura Sonora de João Cardoso
A atuação d'O Mau Olhado desdobrou-se como uma sequência cinematográfica, onde cada canção funcionava como uma cena distinta dentro de uma narrativa maior. João Cardoso foi tecendo atmosferas, umas mais densas e outras mais abertas, fundindo diferentes referências musicais sem que estas perdessem a sua identidade original. Este método de construção sonora permitiu que a história se desvendasse progressivamente, alimentando a curiosidade do público.
Foi precisamente nesta aposta na curiosidade que o concerto ganhou uma força particular, captando a atenção de todos. Quem estava junto ao palco acompanhava cada nota com uma concentração notável, enquanto aqueles que apenas atravessavam Cem Soldos acabavam por abrandar o passo, seduzidos por um convite silencioso a parar, ouvir e desvendar o que se passava. O som funcionou como um íman, atraindo os presentes para uma experiência mais introspectiva.
Em palco, a presença d'O Mau Olhado mostrou-se tão integrante e impactante quanto a própria música. Com uma atitude marcante, mas igualmente com uma contenção calculada, e uma intensidade que prescindia da necessidade de um clímax constante, a banda entregou um espetáculo com personalidade vincada. A performance conseguiu escapar ao formato muitas vezes previsível dos concertos de festival, deixando uma marca distintiva na programação do Bons Sons.
O Impacto da Descoberta Inesperada
O Bons Sons, pela sua essência, prospera nestes encontros inesperados, onde o público é surpreendido por propostas artísticas que se desviam do óbvio. O Mau Olhado soube explorar esse espaço de descoberta, introduzindo uma camada de enigma e introspeção ao segundo dia do evento. A sua atuação sublinhou que nem toda a música precisa de ser imediatamente decifrada; algumas das experiências mais ricas são aquelas que deixam questões no ar, fomentando a reflexão muito depois de as últimas notas se terem desvanecido.
Quando o concerto chegou ao fim, permaneceu no ar a sensação de que nem tudo precisava de ser explicado de imediato, reforçando a ideia de que a arte pode ser mais poderosa quando oferece espaço para a interpretação pessoal. Este espetáculo adicionou um capítulo singular e memorável ao Bons Sons 2026, escrito entre sombras, uma saudável inquietação e uma dose generosa de mistério, elementos que reforçam a diversidade e a profundidade da cena cultural portuguesa independente.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 7 de agosto de 2026