António Olaio duplica o imaginário com dois novos discos
António Olaio lança dois álbuns pela Lux Records, explorando linguagens artísticas únicas em colaborações com Victor Torpedo e Manuel Guimarães.
Redação PORTA B
21 de abril de 2026

António Olaio duplica o imaginário com dois novos discos
António Olaio, uma das figuras mais singulares da cultura portuguesa, regressa ao panorama musical com dois novos álbuns. Editados pela Lux Records, “If My Heart Had a Brain”, em colaboração com Victor Torpedo, e “Next Stop is Yesterday”, ao lado de Manuel Guimarães, reafirmam o talento multifacetado do artista. Explorando territórios que cruzam música, performance e artes visuais, Olaio apresenta-nos dois universos distintos, mas interligados pela sua visão criativa e irreverente.
Um coração que pensa e um cérebro que sente
O primeiro dos dois discos, “If My Heart Had a Brain”, resulta de uma parceria com Victor Torpedo, uma das figuras mais marcantes da cena musical portuguesa. Originalmente concebido como uma troca de duas canções entre os artistas, este projeto rapidamente floresceu num álbum completo e coeso. O trabalho é uma fusão rica de palavras e sons que se entrelaçam de forma quase orgânica, criando um ambiente onde a música e a letra se alimentam mutuamente.
As composições de Victor Torpedo, conhecidas pela sua densidade e capacidade de evocação, servem de base para as letras de António Olaio, que parecem surgir como um diálogo íntimo com as melodias. Este disco destaca-se pela sua abordagem experimental ao formato da canção, onde o absurdo, o humor e a melancolia convivem. Faixas como “Where Paris Used To Be”, “Les Amours de Salazar” e “Crying My Brains Out” transportam-nos para um universo onde as fronteiras entre razão e emoção são deliberadamente borradas. O próprio título do álbum, que sugere uma inversão entre coração e cérebro, é um reflexo desta proposta artística única.
“If My Heart Had a Brain” é, assim, uma obra que nos desafia a repensar a forma como percebemos as emoções e a racionalidade, traduzindo-se num álbum tão profundo quanto desarmante.
O piano como palco para o passado e o presente
O segundo disco, “Next Stop is Yesterday”, nasce da colaboração de António Olaio com Manuel Guimarães, cujo piano assume o papel de protagonista. Este trabalho explora um registo mais intimista, onde o foco está no diálogo entre a palavra e a música em estado puro. Aqui, o piano não é apenas um complemento instrumental, mas um elemento transformador, que molda e recria as canções num constante exercício de reinvenção.
O álbum reúne tanto material inédito como novas versões de temas já conhecidos, oferecendo uma janela para a faceta performativa do duo. Faixas como “Black Jello Birthday Party”, “I’m Just Another Brain in the Country” e “Heading West” são exemplos da plasticidade musical de Manuel Guimarães, que conjuga uma execução técnica apurada com uma sensibilidade rara. A canção que dá nome ao álbum, “Next Stop is Yesterday”, parece resumir a essência deste projeto: uma reflexão sobre o tempo, a memória e as formas como ambos podem ser moldados pela arte.
O resultado é uma obra que não só expande os limites da colaboração musical, mas que também convida o ouvinte a mergulhar numa experiência introspectiva e emocionalmente rica.
Um criador singular
António Olaio demonstra mais uma vez ser um artista que desafia categorizações fáceis. Arraigado na tradição da vanguarda, mas com um apelo universal, reúne nestes dois discos o melhor das suas múltiplas facetas: a sensibilidade do poeta, o arrojo do performer e a ousadia do músico experimental. Enquanto “If My Heart Had a Brain” explora o surrealismo e a ironia, “Next Stop is Yesterday” convida à contemplação e à redescoberta das possibilidades da música como arte viva.
Estes dois trabalhos não só reforçam a relevância de António Olaio no panorama artístico contemporâneo português, como também ilustram o poder da colaboração criativa. Em tempos de homogeneidade cultural, Olaio persiste em criar mundos únicos, questionando convenções e inspirando novas formas de ver e ouvir.
Com “If My Heart Had a Brain” e “Next Stop is Yesterday”, António Olaio prova que o seu imaginário continua a expandir-se, multiplicando-se em camadas de significado e abrindo novas portas para a arte contemporânea.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 21 de abril de 2026
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