Bardino lançam “A Traição do Padre Martinho OST”
Bardino compôs a banda
Redação PORTA B
11 de fevereiro de 2026

Bardino Desvenda Drama de Santareno em Banda Sonora Íntima para Cinema
Os Bardino, trio conhecido pela sua abordagem sonora exploratória, lançam finalmente a banda sonora original para "A Traição do Padre Martinho", a aclamada estreia na realização de Ana Cunha. Este trabalho, concebido há quase cinco anos, marca um ponto de viragem na trajetória da banda, revelando uma faceta mais contida e intimista da sua linguagem musical. A obra sonora, que acompanha o drama passado numa aldeia portuguesa dos anos 60, oferece uma nova dimensão à narrativa fílmica e à discografia do grupo.
Da Paisagem Aberta ao Drama Humano
Desde o seu EP homónimo, lançado em 2017, seguido por "Centelha" (2020) e "Memória da Pedra Mãe" (2024), os Bardino têm pautado a sua criação pela ligação a lugares e paisagens concretas, transformando-as em tapeçarias sonoras. No entanto, o convite de Ana Cunha em 2021 apresentou um desafio de outra natureza: habitar o universo fechado e dramaticamente denso de um texto de Bernardo Santareno, que serviu de base ao filme.
"A Traição do Padre Martinho", uma produção da Ukbar Filmes integrada no projeto "Contado por Mulheres" e transmitida pela RTP, transporta o espectador para uma pequena aldeia portuguesa no final dos anos 60. A trama desenrola-se em torno de um jovem padre que, ao tomar o partido da população, é expulso pelo patriarcado local, mas encontra na sua comunidade a defesa e o apoio necessários. Este cenário exigiu dos Bardino uma adaptação e uma exploração sonora distinta das suas habituais viagens por paisagens abertas.
O Processo Criativo e a Sonoridade Despida
A génese da banda sonora, intitulada "A Traição do Padre Martinho OST", decorreu numa residência artística em Anadia, onde o trio se isolou no laranjal da casa da avó Alice. Este ambiente íntimo e rural influenciou profundamente o processo de composição, resultando numa produção deliberadamente lo-fi e rigorosamente guiada pela visão da realizadora. A proximidade e a introspeção deste período transferem-se para a música, que se revela mais despojada e próxima do que o habitual no universo sonoro dos Bardino.
Rui Martins assumiu a produção, mistura e masterização do álbum, contribuindo também com os teclados, enquanto Nuno Fulgêncio ficou responsável pela bateria e percussão, e Diogo Silva pelo baixo. A instrumentação é utilizada num registo contido, que serve a narrativa do filme sem nunca perder a identidade inconfundível dos Bardino. Ao longo de dez faixas e pouco mais de vinte minutos, o álbum constrói-se como um arco dramático que espelha a estrutura da história. Três peças centrais, "Padre Martinho", funcionam como pilares – um "Prelude" que abre, um "Interlude" que marca a viragem, e um "Postlude" que encerra o percurso. Entre elas, surgem as composições dedicadas às personagens e momentos-chave da trama: "Alice", "Bernardo", "Albino", "O Cerco", "Guarda" e "Escadas". Cada uma destas composições funciona como um retrato sonoro breve e essencial, que evoca atmosferas em vez de as descrever.
Perspetiva
A publicação de "A Traição do Padre Martinho OST" quase cinco anos após a sua conceção confere-lhe uma qualidade particular. Longe de diminuir a sua relevância, este intervalo temporal permitiu que a música amadurecesse, como se tivesse assimilado o silêncio e as paisagens que sempre inspiraram os Bardino. A obra demonstra a notável capacidade da sua linguagem musical, frequentemente associada a explorações sonoras vastas, de habitar também o espaço fechado e denso de um drama humano.
Este lançamento não só reafirma a versatilidade dos Bardino no panorama musical português, como também sublinha a importância da colaboração entre diferentes expressões artísticas. A união da música contemporânea do trio com o cinema de Ana Cunha e o legado literário de Bernardo Santareno enriquece a cultura nacional, provando que a arte pode transcender barreiras temporais e estilísticas para criar novas narrativas e experiências.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 11 de fevereiro de 2026
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