MÚSICA

Catarina Branco edita álbum “Acordava cansada”

Catarina Branco lança “Acordava cansada”, segundo álbum que explora um universo introspectivo e minimal, disponível em vinil e plataformas digitais.

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Redação PORTA B

13 de abril de 2026

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Catarina Branco edita álbum “Acordava cansada”

Catarina Branco apresenta o introspectivo “Acordava cansada”

Catarina Branco, uma das vozes mais singulares da nova música portuguesa, está de regresso aos discos com o lançamento de “Acordava cansada”. O novo álbum, já disponível em todas as plataformas digitais e também numa cuidada edição em vinil, assinala um aprofundamento do percurso artístico da cantautora. Trata-se do segundo trabalho longa-duração de Catarina Branco, sucedendo ao luminoso "Vida Plena" (2022), e surge como o reflexo de uma fase mais introspectiva, marcada pela melancolia e pelo silêncio.

O disco, que a própria artista descreve como uma viagem ao essencial, é um exercício de depuração emocional e sonora, onde cada faixa se apresenta como um fragmento de um processo de reconciliação e redescoberta. “Neste conjunto de canções exorcizei demónios antigos e recentes. Fiz as pazes com o silêncio que me tirou a voz”, afirma Catarina Branco, sublinhando a transformação pessoal e artística que dá corpo a “Acordava cansada”.

O silêncio como ponto de partida criativo

Habituada a criar em contextos marcados pela euforia e pelo ruído, Catarina Branco encontrou neste novo projecto uma abordagem radicalmente diferente. “Neste disco vieram ter comigo momentos de silêncio e melancolia”, confessa a artista, explicando que foi nesse estado de introspeção que as melodias começaram a emergir. Cada canção é fruto de um processo de escuta interior, onde o vazio e o silêncio desempenham papéis centrais, tanto na construção emocional como na composição musical.

Uma parte significativa deste processo criativo decorreu em agosto de 2024, durante uma residência artística na Casa de Gigante, no Vale do Pereiro, Sertã. O isolamento do local foi determinante para Catarina aprofundar a sua relação com a palavra e o som. “No silêncio do Vale, foi possível dissecar todo o ruído e deixar apenas o essencial para o silêncio se fazer ouvir”, recorda. Este exercício rigoroso de depuração resultou num álbum onde cada elemento é pensado ao detalhe e onde a ausência pesa tanto quanto a presença.

Folk minimalista e uma nova estética

Do ponto de vista sonoro, “Acordava cansada” propõe uma estética folk minimalista, que privilegia a captação de instrumentos acústicos e reduz os arranjos ao essencial. Apesar desta abordagem aparentemente simples, o álbum revela uma riqueza surpreendente, fruto de uma cuidada orquestração de elementos. Catarina Branco contou com o contributo de músicos como Sara Gonçalves, Leonor Orca, Mariana Camacho, Catarina Valadas, Rodrigo Nogueira e Bá Álvares, que ajudaram a criar uma paleta sónica diversa mas contida.

A artista, que assumiu também a produção e mistura do disco, optou por um equilíbrio entre o orgânico e o digital, utilizando vestígios de síntese electrónica para complementar as sonoridades acústicas. O resultado é um trabalho que parece estar em constante tensão entre dois mundos: o antigo e o moderno, o agreste e o íntimo, o denso e o essencial.

Entre música e imagem, uma narrativa visual

O universo de “Acordava cansada” não se limita ao campo auditivo. Catarina Branco explora também uma forte componente visual para acompanhar o disco. O imaginário gótico e náutico de uma “pintura de palhaça a preto e branco” traduz o dramatismo das suas canções e reforça a narrativa emocional do álbum. A melancolia que perpassa as letras e as melodias é também visível nesta escolha estética, que complementa a música de forma simbiótica.

Natural do Oeste, Catarina Branco continua a reflectir, na sua obra, a dualidade do território que a viu crescer: entre o vazio e o excesso, entre o agreste e o íntimo. Esse jogo de opostos, que sempre a caracterizou, atinge aqui uma maturidade que confirma a sua singularidade no panorama musical português.

Um convite à escuta essencial

Com “Acordava cansada”, Catarina Branco não só revela a profundidade do seu talento como também desafia o público a uma escuta mais atenta e essencial. Num mundo cada vez mais ruidoso, o álbum surge como um refúgio, um espaço onde o silêncio e a melancolia são valorizados e transformados em arte. Este trabalho reafirma Catarina Branco como uma das artistas mais interessantes e coerentes da sua geração, capaz de transformar as suas vivências em música que toca fundo.

O disco já está disponível em todas as plataformas digitais, e a edição em vinil promete tornar-se num objeto de culto entre os amantes do formato físico e do trabalho artístico que vai além da música.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 13 de abril de 2026

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