MÚSICA

Chico César: Um homem, um violão e 30 anos de Músicas e Histórias

Chico César celebrou 30 anos do álbum «Aos Vivos» com um concerto intimista no Porto, unindo voz, violão e histórias sobre identidade e migração.

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Redação PORTA B

18 de março de 2026

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Chico César: Um homem, um violão e 30 anos de Músicas e Histórias

Chico César celebra 30 anos de carreira com concerto intimista na Casa da Música

Na noite de segunda-feira, a Casa da Música, no Porto, foi palco de um dos concertos mais aguardados do ano: Chico César, o emblemático cantor, compositor e poeta brasileiro, subiu ao palco para uma celebração muito especial. Com um violão, a sua inconfundível voz e uma bagagem repleta de histórias, o artista comemorou os 30 anos do lançamento do seu primeiro álbum, Aos Vivos.

Uma viagem à essência do primeiro álbum

Lançado em 1995, Aos Vivos foi gravado de forma simples, com Chico César a cantar e tocar violão, num registo cru e visceral que colocou em evidência a sua capacidade ímpar de contar histórias através da música. Na celebração deste marco, o músico optou por regressar a essa fórmula despojada, proporcionando ao público português uma experiência que misturou nostalgia e atualidade, num concerto marcado pela proximidade e pela partilha.

A abertura fez-se com «Beradêro», um manifesto poético que exalta a identidade nordestina e a vida no interior do Brasil. Desde o primeiro acorde, o público percebeu que esta não seria apenas uma celebração de um álbum, mas um convite para uma viagem pelos meandros da música e da vida do artista. Seguiu-se «Mama África», um dos seus maiores êxitos, que arrancou aplausos vibrantes e movimentou até os mais tímidos nas cadeiras.

Música e histórias entrelaçadas

Com a habitual mestria nas palavras, Chico César não se limitou a interpretar as suas canções. Entre uma e outra, abriu espaço para partilhar memórias dos bastidores dos seus 30 anos de carreira. Relembrou colaborações marcantes, como a que teve com Itamar Assumpção, e revelou as dificuldades que enfrentou no início da sua trajetória artística, sem nunca perder o humor que lhe é característico.

Uma das reflexões mais marcantes do concerto surgiu quando abordou o tema das migrações. «Todos somos migrantes», sublinhou o músico, numa alusão ao contexto global mas também à realidade portuguesa, onde o tema tem estado na ordem do dia. Numa mistura de seriedade e leveza, não resistiu a um comentário irónico mas certeiro: «Os portugueses vieram com as caravelas e nós voltámos com as novelas», arrancando risadas da audiência e lembrando a forte conexão cultural entre Portugal e Brasil.

A força poética de «Saharienne»

Um dos momentos altos da noite foi a interpretação de «Saharienne», uma das suas canções mais intensas e melancólicas. A canção, cuja profundidade ressoa tanto no Brasil como além-fronteiras, aborda questões sociais e políticas com uma lírica rica em referências culturais e sensoriais. Numa crítica à indiferença do Ocidente perante a violência no Médio Oriente e outras tragédias humanas, a música ganha um peso quase cinematográfico. Chico César não deixou passar a oportunidade de comentar o nome da canção, brincando com a associação que muitos fazem ao famoso casaco desenhado por Yves Saint Laurent nos anos 60.

Com esta interpretação, o músico reafirmou o seu estatuto como um dos expoentes máximos da Música Popular Brasileira (MPB), um artista cujo trabalho ultrapassa a dimensão sonora para se transformar em crónicas poéticas sobre o mundo e a condição humana.

Mais do que música

Chico César demonstrou, mais uma vez, que as suas canções não são apenas melodias cativantes, mas também uma porta de entrada para a reflexão. A sua performance na Casa da Música foi um espetáculo que exigiu mais do público do que a simples contemplação estética. Foi uma noite para escutar com atenção, refletir e absorver as mensagens que o artista trouxe ao Porto, num momento íntimo e inesquecível.

Com esta celebração dos 30 anos de Aos Vivos, Chico César reafirma a força da música como ferramenta de memória, resistência e transformação. Um concerto que ficará gravado na história de quem lá esteve, não apenas como uma noite de boa música, mas como uma aula de humanidade.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 18 de março de 2026

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