MÚSICA

Clã e Sérgio Godinho: A Arte de Contar Canções no Regresso Triunfal do “Conta-me Uma Canção”

A PORTA B acompanha os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.

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Redação PORTA B

29 de janeiro de 2026

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Clã e Sérgio Godinho: A Arte de Contar Canções no Regresso Triunfal do “Conta-me Uma Canção”

Clã e Sérgio Godinho: A Arte de Contar Canções no Regresso Triunfal do “Conta-me Uma Canção”

A noite de 28 de janeiro assinalou o regresso aguardado do ciclo "Conta-me Uma Canção", que inaugurou a sua quarta edição no palco do emblemático Teatro Maria Matos, em Lisboa. O encontro inédito entre a banda portuense Clã e o mestre Sérgio Godinho ofereceu uma jornada musical e narrativa que cativou uma sala completamente esgotada, mostrando a vitalidade de um formato que celebra a profundidade da música portuguesa e a riqueza das suas histórias.

Um Refúgio Musical na Noite Lisboeta

Apesar de uma noite chuvosa e de ressaca de tempestade, o Teatro Maria Matos transformou-se num verdadeiro santuário de calor e boa música. A expectativa era palpável na sala lisboeta, lotada por um público que ansiava por partilhas e melodias. Desde os primeiros acordes, a simbiose entre os Clã e o "Poeta da Canção" foi notória, com a abertura a cargo de "Artesanato", um dos temas mais emblemáticos da banda, que de imediato preparou o terreno para uma noite memorável. Em palco, Sérgio Godinho não poupou elogios à banda, reconhecendo o seu lugar cimeiro na música portuguesa, consolidado ao longo de décadas de inovação e coerência artística, cimentando uma cumplicidade que se estenderia por toda a atuação.

A Génese de Uma Parceria e as Histórias Por Trás dos Sons

O "Conta-me Uma Canção" vive das narrativas que contextualizam e dão nova vida aos temas, e esta edição não foi exceção. Manuela Azevedo, a carismática vocalista dos Clã, desvendou no arranque da noite a génese de uma parceria artística que remonta a 1998, ano da Expo e de uma troca de e-mails que evoluiu para uma colaboração sólida. Essa ligação manifestou-se em palco através de interpretações conjuntas de temas como "Aprendi a Amar" e "Uma Mulher da Vida", este último fruto da parceria criativa entre Hélder Gonçalves (Clã) e Sérgio Godinho. Manuela Azevedo sublinhou a mestria e o "sexto sentido" de Sérgio Godinho para compor canções que se integram de forma orgânica e perfeita nos álbuns a que se destinam, como é o caso de "Uma Mulher da Vida", incluído em "Rosa Carne", um dos trabalhos mais celebrados do cantautor.

A noite avançou com Sérgio Godinho a revisitar clássicos intemporais como "Cuidado com as Imitações", acompanhado pelo seu "assessor" Nuno Rafael, revelando a curiosa origem do título, inspirada numa caixa de palitos com a advertência sobre cópias. Houve ainda um momento de homenagem e sentida recordação, com a interpretação de "Mariana Pais, 21 Anos", a última colaboração de Sérgio com o seu primeiro companheiro de composição, o saudoso José Mário Branco, figura central da música de intervenção e da cultura portuguesa. A cumplicidade e a alegria entre os artistas em palco foram palpáveis, seja nas interpretações conjuntas – como "Tudo no Amor", canção escrita por Godinho e composta por Hélder Gonçalves – ou nos momentos de leveza e humor. "Tipo Contrafacção" transformou-se num dos pontos altos da noite, com Manuela Azevedo a protagonizar uma interpretação divertida e improvisada, adicionando nomes de marcas conhecidas e imitações, provocando gargalhadas e aplausos na plateia. A noite seguiu com "O Baú de Sigmund Freud" e a popular "A Noite Passada", cantada em uníssono pela plateia, que serviu de mote para Sérgio Godinho e Clã partilharem as histórias dos seus primeiros encontros: o de Sérgio com Nuno Rafael a propósito de uma letra para os Despe e Siga ("Tou Bom"), e o dos Clã com Sérgio num almoço em Lisboa, onde a jovem banda, com apenas dois discos lançados, o convidou a participar num concerto, convite prontamente aceite e que marcou o início de uma bela amizade. O alinhamento incluiu ainda "O Rapaz da Camisola Verde", celebrizado na voz de Carlos do Carmo, mas que Godinho também assinou.

Perspetiva

O "Conta-me Uma Canção" solidifica-se como um dos eventos mais singulares e enriquecedores da paisagem cultural portuguesa. Ao juntar nomes consagrados e talentos vibrantes, e ao focar-se nas histórias e no processo criativo por trás das canções, o ciclo oferece uma profundidade que transcende o mero concerto. Este início de edição, com a mestria e a cumplicidade entre Clã e Sérgio Godinho, reitera a capacidade da música portuguesa de se reinventar, de cruzar gerações e de continuar a emocionar e a inspirar através da partilha de vivências e da celebração da palavra cantada. É uma prova da vitalidade de um formato que honra a memória e o futuro da nossa cultura musical.


PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 10 de fevereiro de 2026

PORTA B — Este artigo representa a perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.