MÚSICA

“Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto” é um projeto musical que revisita a obra de Fausto Bordalo Dias

Projeto musical "Do Cabo do Mundo" reúne artistas imigrantes para revisitar a obra de Fausto Bordalo Dias, cruzando influências africanas e brasileiras.

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Redação PORTA B

24 de março de 2026

4 min de leitura|171 leituras
“Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto” é um projeto musical que revisita a obra de Fausto Bordalo Dias

"Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto" revisita a obra de Fausto Bordalo Dias com novas vozes e ritmos

Num tempo em que as fronteiras se fecham e os discursos de divisão ganham terreno, a música continua a provar que ainda há espaço para o encontro. É exatamente essa a proposta de "Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto", um novo projeto musical que explora o legado intemporal de Fausto Bordalo Dias através das vozes e experiências de músicos imigrantes residentes em Portugal. Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse dão vida a esta iniciativa idealizada pelo músico e diretor musical Carlos César Motta, que promete transformar a obra de Fausto numa celebração de diversidade cultural.

O projeto estreia-se ao vivo no próximo dia 11 de abril, no Teatro-Cine de Pombal, e já tem edição discográfica prevista para maio. Entre o palco e o estúdio, "Do Cabo do Mundo" apresenta-se como um gesto artístico profundamente relevante para os dias de hoje, quebrando barreiras através da música e convocando múltiplas histórias numa releitura contemporânea de um dos maiores cancioneiros da música portuguesa.

O Atlântico como ponto de encontro

Partindo da obra de Fausto Bordalo Dias, reconhecida pela forma como aborda a ideia de travessia e pela relação simbólica com o Atlântico, "Do Cabo do Mundo" expande essa visão para um território de ligação entre Portugal, África e Brasil. Aqui, o Atlântico não é apenas um espaço geográfico, mas um eixo de intercâmbio cultural, histórico e humano. Este é o ponto de partida para um diálogo entre diferentes tradições musicais que, sob a direção de Carlos César Motta, ganham novas camadas de interpretação.

Com arranjos que cruzam a polirritmia africana, a cadência do samba, a leveza da morna e a energia do maracatu, o projeto homenageia a universalidade da escrita de Fausto. Canções emblemáticas como "Por Este Rio Acima", "Lembra-me um Sonho Lindo" ou "Rosalinda" reaparecem aqui reinventadas, mostrando que a música tem a capacidade única de se adaptar a novos tempos e contextos, sem nunca perder a sua essência.

Uma equipa de excelência

No centro deste projeto está Carlos César Motta, baterista e percussionista com mais de 30 anos de carreira, cuja visão artística foi fundamental para a materialização desta ideia. Com um currículo que inclui colaborações com grandes nomes da música brasileira como Maria Bethânia, Elza Soares e Zélia Duncan, Carlos César Motta traz a sua vasta experiência para o panorama musical português, onde tem estado cada vez mais ativo desde 2018.

Ao seu lado, uma seleção de artistas cujas histórias e vozes refletem a pluralidade cultural que se pretende destacar. Luca Argel, cantor e compositor brasileiro com uma carreira consolidada em Portugal; Nani Medeiros, artista uruguaio que traz consigo as sonoridades do Rio da Prata; Nancy Vieira, uma das vozes mais emblemáticas de Cabo Verde; e Selma Uamusse, cantora moçambicana cujo trabalho é uma fusão de soul, jazz e ritmos tradicionais africanos. Juntos, formam um quarteto que se propõe não apenas a revisitar Fausto, mas a recriá-lo.

Do palco ao disco

A estreia ao vivo no Teatro-Cine de Pombal será o ponto de partida para este tributo, que chegará às plataformas digitais no final do próximo mês com o lançamento de um álbum. Antes disso, a 24 de abril, será divulgado o primeiro single, que dará um vislumbre das novas leituras artísticas que compõem o projeto.

A produção do disco conta com o envolvimento da Casa Varela e do próprio Teatro-Cine de Pombal, sublinhando o apoio local a uma iniciativa que tem potencial para ganhar dimensão nacional e internacional. A distribuição digital será assegurada pela editora Symphonic, garantindo que estas novas interpretações da obra de Fausto possam chegar a um público diversificado.

Um tributo do presente para o futuro

"Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto" é mais do que uma homenagem a um dos nomes maiores da música portuguesa. É uma afirmação de que a cultura se faz de encontros, de ligações e de partilhas, mesmo em tempos de isolamento e confronto. Ao dar voz a artistas imigrantes e ao cruzar tradições musicais, o projeto inscreve a obra de Fausto no presente, abrindo caminho para que a sua mensagem de unidade e exploração continue a ecoar no futuro.

Com um pé na tradição e outro na inovação, "Do Cabo do Mundo" é um convite a escutar Fausto com novos ouvidos e, acima de tudo, a reconhecer o contributo inestimável das histórias e vozes que chegaram "de longe" para enriquecer o presente cultural português.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 24 de março de 2026

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