emmy Curl celebra 20 anos de carreira com novo single
Novo lançamento na cena portuguesa. A PORTA B apresenta e analisa esta proposta musical.
Redação PORTA B
30 de março de 2026

Do Interior Profundo ao Futuro Sustentável: emmy Curl Desvenda “Encanto” e Celebra 20 Anos de Carreira
A cantora, compositora e produtora emmy Curl assinala duas décadas de percurso musical com o lançamento de “Encanto”, o primeiro single do seu muito aguardado novo álbum, “Pastoral 2.0”. Com edição prevista para o final do verão de 2026, o disco promete uma imersão nas raízes culturais portuguesas, revisitando histórias e dialetos do interior do país.
Uma Viagem Sonora e Antropológica à Herança Portuguesa
“Pastoral 2.0” surge como uma continuação conceptual do aclamado “Pastoral”, trabalho que em 2025 foi distinguido com o prestigiado Prémio José Afonso. Neste novo capítulo, emmy Curl aprofunda a sua exploração das regiões remotas de Portugal, reinterpretando simbolismos e narrativas que moldaram a identidade cultural do país.
O projeto transcende a mera criação musical, abraçando uma dimensão de antropologia cultural e arqueologia sonora. A artista procura desenterrar e reintroduzir tradições e identidades que, muitas vezes, permanecem à margem da consciência coletiva, desafiando a uniformização cultural.
“Encanto”: Um Grito de Identidade em Dialeto Transmontano
O single “Encanto” é um testemunho eloquente desta missão. Interpretado parcialmente em dialeto transmontano, a canção funde instrumentos tradicionais com a sofisticação do jazz contemporâneo e influências de fusão. Para a artista, esta escolha representa um reencontro pessoal e artístico. “Existe um amor-próprio esquecido pela diversidade dentro da nossa própria cultura”, afirma emmy Curl, que sentiu durante muito tempo uma pressão para que a sonoridade e a fala remetessem para Lisboa.
A canção não só celebra a diversidade linguística, mas também reflete a visão do movimento solarpunk, imaginando um futuro onde a humanidade coexiste em harmonia com a natureza e a tecnologia. Esta abordagem ecológica e esperançosa permeia tanto a sonoridade quanto a estética visual do projeto.
O videoclipe de “Encanto”, filmado no verão de 2025, poucos dias após um dos maiores incêndios florestais na região do Alvão, é um poderoso manifesto visual. A paisagem devastada serve como pano de fundo para uma narrativa de destruição e renascimento, explorando os contrastes entre a pureza e a selvageria, a tradição e a modernidade, a natureza e a presença humana. Nele, surge a figura de uma virgem branca, símbolo de pureza católica, empunhando uma bilha, objeto historicamente ligado a viagens e encontros em aldeias de Vila Real. Outra personagem veste uma Capa de Honra, peça secular de burel que representa o orgulho cultural das regiões fronteiriças de Miranda do Douro, mas também, num dualismo intencional, o patriarcado.
Num ritual simbólico nas montanhas do Alvão, a personagem deposita a bilha sobre uma pedra, iniciando uma metamorfose. Num salto de fé na magia das tradições, transforma-se numa figura inspirada nos Caretos de Podence – um ser vibrante, coberto de franjas de lã e chocalhos, que encarna a dimensão pagã, festiva e ancestral do norte da Península Ibérica. “Sentia necessidade de mostrar o simbolismo destas regiões antigas do norte e demonstrar que algo novo pode sempre nascer dos rituais antigos”, explica emmy Curl. “Transformar-me da inocência branca num ser pagão colorido aproximou-me da versão de mim própria que existia na infância, antes de tantas camadas sociais moldarem quem somos. Por isso também escolhi cantar no dialecto transmontano, para abraçar plenamente a força e a beleza da região onde cresci.”
Perspetiva
A jornada de emmy Curl, que culmina neste projeto ambicioso, é um espelho da evolução da própria artista e, por extensão, de uma crescente consciência cultural em Portugal. Ao dar voz a dialetos e tradições marginalizadas, a cantora não só enriquece o panorama musical, mas também contribui para a valorização da diversidade cultural do país. A sua obra, que atravessa 20 anos de dedicação, assume-se como um ato de resistência e celebração, inspirando um futuro onde a identidade local e a sustentabilidade se entrelaçam com a inovação artística.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 30 de março de 2026
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