Estelita Mendonça questiona o consumo contemporâneo com Summer Winter 27
No Portugal Fashion, Estel
Redação PORTA B
7 de julho de 2026

Estelita Mendonça Descodifica o Consumo: Summer Winter 27 Põe a Moda a Pensar
No Portugal Fashion Experience 2026, Estelita Mendonça apresentou a sua coleção Summer Winter 27, elevando a moda para além da mera estética e consolidando-a como uma poderosa ferramenta de reflexão social. O designer português lançou um olhar crítico sobre os modelos de consumo vigentes, a produção em massa e o valor intrínseco que atribuímos aos objetos no nosso quotidiano. Com uma linguagem visual singular, a coleção desafia o observador a repensar a sua relação com o que consome.
Da Ráfia à Reflexão: Uma Crítica Incisiva ao Consumo
O ponto de partida para Summer Winter 27 emergiu da transformação de um ícone da cultura comercial asiática: as tradicionais bolsas de ráfia, amplamente usadas no transporte de mercadorias. Estas peças, habitualmente associadas ao consumo rápido e à circulação incessante de bens, foram meticulosamente desconstruídas e reconstruídas, ganhando uma nova identidade enquanto objetos de autor. Ao reaproveitar materiais produzidos em larga escala, Estelita Mendonça inverteu a perspetiva comum, questionando a lógica da obsolescência programada.
Aquilo que é frequentemente visto como descartável adquire uma nova vida através do design, convidando a uma profunda reflexão sobre como o valor é construído e atribuído aos objetos que nos rodeiam. A narrativa da coleção encontrou eco também numa expressão popular portuguesa, "é tudo caminho", utilizada aqui de forma crítica. Esta ideia serviu para explorar a tendência contemporânea de justificar qualquer percurso em nome do sucesso, independentemente das implicações. Ao longo do desfile, referências gráficas inspiradas na sinalética rodoviária reforçaram esta leitura, transformando a autoestrada numa metáfora eloquente para uma sociedade onde a velocidade, a produtividade e o crescimento económico parecem sobrepor-se, muitas vezes, a questões éticas fundamentais.
Entre o Artesanal e o Urbano: A Linguagem Visual de Summer Winter 27
Visualmente, a coleção de Estelita Mendonça estabeleceu um diálogo constante entre universos que, à primeira vista, parecem opostos. O artesanal cruzou-se com elementos industriais, enquanto materiais reaproveitados coexistiram com uma construção rigorosa e contemporânea. As silhuetas apresentaram uma linguagem marcadamente urbana e conceptual, onde cada detalhe parecia carregar um significado que transcendia a sua função puramente estética. Este jogo de contrastes e a profundidade dos elementos visuais são marcas distintivas do trabalho do designer.
A capacidade de transformar objetos comuns em discursos visuais tem pautado o percurso de Estelita Mendonça desde o início da sua carreira. Presença assídua no Portugal Fashion há mais de uma década, o designer tem vindo a afirmar uma identidade autoral reconhecida também além-fronteiras. Destaca-se consistentemente pela forma como utiliza a moda para abordar questões culturais, sociais e políticas através de uma linguagem visual irreverente e profundamente conceptual, um legado que Summer Winter 27 veio reafirmar com vigor.
Perspetiva
Em Summer Winter 27, a abordagem interventiva de Estelita Mendonça ganhou nova expressão, sem apresentar respostas fechadas, mas antes um conjunto de perguntas essenciais. O desfile questiona os caminhos que escolhemos enquanto sociedade e a relação que estabelecemos com o que consumimos. A coleção lembra que cada objeto transporta uma história e que cada decisão de consumo pode refletir valores muito para além da estética superficial.
Com esta apresentação no Portugal Fashion Experience, Estelita Mendonça reafirmou a sua posição como um dos criadores portugueses mais interventivos e relevantes da sua geração. Entre a reutilização criativa, a crítica social e a experimentação estética, Summer Winter 27 provou que a moda continua a ser um espaço privilegiado para questionar o presente e para imaginar novas possibilidades para o futuro da nossa sociedade.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 7 de julho de 2026
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