MÚSICA

Fernando Martins estreia-se a solo como _F com um manifesto eletrónico inspirado nos anos 70

Fernando Martins estreia-se a solo como \_F com "Satellite", um álbum eletrónico inspirado nos anos 70, disponível em todas as plataformas digitais.

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Redação PORTA B

2 de março de 2026

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Fernando Martins estreia-se a solo como _F com um manifesto eletrónico inspirado nos anos 70

Fernando Martins estreia-se a solo como _F com um manifesto eletrónico inspirado nos anos 70

Depois de décadas de uma carreira sólida e multifacetada, Fernando Martins, um dos nomes mais respeitados da música portuguesa, estreia-se a solo sob a alcunha artística _F. O álbum de estreia, intitulado Satellite, já está disponível em todas as plataformas de streaming e promete ser um marco no panorama da música eletrónica nacional, ao mesmo tempo que presta homenagem aos grandes nomes que definiram o género nas décadas de 70 e 80.

Composto entre 2023 e 2025, este trabalho assume-se como mais do que um mero conjunto de faixas: é um manifesto pessoal, profundamente autobiográfico e imerso numa linguagem sonora que conecta passado e presente. Satellite apresenta-se como a banda sonora de uma jornada interior, explorando estados de espírito e fragmentos de memória através de uma combinação de texturas eletrónicas e ambientais.

Fernando Martins, que iniciou o seu percurso musical em 1978, já é um nome que dispensa apresentações no contexto da música portuguesa. Com uma carreira que atravessa várias décadas, desempenhou um papel crucial em bandas como Ritual Tejo e Tambor—grupo que continua ativo e conta com a sua direção criativa. Para além disso, a sua experiência como produtor e compositor de bandas sonoras para televisão e publicidade consolidou a sua reputação como um dos mais versáteis artistas nacionais. Contudo, é com Satellite que o músico se expõe de forma mais direta e íntima, num trabalho que reflete a essência da sua trajectória criativa.


Uma viagem pelas raízes da eletrónica

Quem escutar Satellite sentirá de imediato as influências que marcaram a formação artística de Fernando Martins. Projetos icónicos como Tangerine Dream, Klaus Schulze, Kraftwerk e Ashra Tempel ecoam ao longo do álbum, mas sempre reinterpretados através de uma lente contemporânea e pessoal. Embora enraizado nestas matrizes sonoras dos anos 70 e 80, o disco não se limita ao revivalismo. Pelo contrário, encontra formas de dialogar com a música eletrónica atual, num jogo dinâmico entre memória e inovação.

Os sintetizadores analógicos e as sequências hipnóticas, tão características da escola berlinense de música eletrónica, encontram aqui um espaço de expressão renovado. Contudo, paira também uma componente emocional e contemplativa que distingue Satellite de outros trabalhos do género. O disco é, antes de mais, uma viagem interior, com passagens que tanto evocam paisagens cósmicas como recantos íntimos do subconsciente.


Do estúdio ao vinil

A concepção de Satellite remonta a uma ideia antiga que Fernando Martins carregava consigo há anos, mas que apenas ganhou forma concreta nos últimos tempos. O músico aproveitou o período de 2023 a 2025 para se dedicar a fundo à criação do álbum, resultando num trabalho minucioso e altamente detalhado. Cada faixa foi pensada como um exercício pessoal, servindo como peça de um quebra-cabeças emocional mais amplo.

Embora o álbum já esteja disponível em formato digital, há uma boa notícia para os amantes do formato físico: Satellite será brevemente editado em vinil. Este lançamento permitirá uma experiência auditiva ainda mais rica, especialmente para quem aprecia a profundidade de som característica dos discos de vinil, um suporte que, tal como a música do álbum, remete para o passado sem perder relevância no presente.


Uma estreia singular de um veterano

Ainda que Satellite marque a estreia a solo de Fernando Martins, este não é o trabalho de um principiante, mas sim de um veterano que se encontra em pleno domínio da sua expressão artística. Para quem acompanhou o percurso do músico em projetos anteriores como Ritual Tejo ou Tambor, ou mesmo nas suas colaborações como produtor, será impossível não reconhecer a assinatura sónica de Martins neste álbum. Contudo, o que surpreende é a capacidade do artista de se reinventar e de encontrar novas formas de comunicar a sua visão criativa.

A aposta de Fernando Martins no pseudónimo _F também merece destaque. Este alter ego parece funcionar como um convite à descoberta, tanto para o público como para o próprio artista, que aqui se aventura por territórios mais introspectivos e experimentais. Satellite é, assim, um testemunho da intemporalidade da música eletrónica, mas também de uma carreira que, longe de ter atingido o seu auge, continua a ultrapassar fronteiras artísticas e emocionais.

Para quem procura uma experiência sonora que mistura nostalgia e modernidade, Satellite é uma proposta incontornável. Resta agora aguardar pelo lançamento em vinil, que certamente será mais um momento alto para os seguidores de Fernando Martins e para todos os apreciadores de música eletrónica.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 2 de março de 2026

PORTA B — Este artigo representa a perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.