MÚSICA

“Foi por Ela”… Do Cabo do Mundo continua a reinventar a obra de Fausto Bordalo Dias

“Do Cabo do Mundo” lança o single “Foi por Ela”, interpretado por Luca Argel, num tributo imigrante à obra de Fausto Bordalo Dias, explorando novas sonoridades.

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Redação PORTA B

8 de maio de 2026

4 min de leitura|70 leituras
“Foi por Ela”… Do Cabo do Mundo continua a reinventar a obra de Fausto Bordalo Dias

“Foi por Ela”… Do Cabo do Mundo continua a reinventar a obra de Fausto Bordalo Dias

A ousadia de reinterpretar um dos mais icónicos cancioneiros da música portuguesa é a premissa que move Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto, projecto que continua a demonstrar como a obra de Fausto Bordalo Dias, marcada pela viagem, pela memória e pela identidade atlântica, permanece viva e surpreendentemente maleável. O mais recente capítulo desta aventura sonora chega-nos com o single “Foi por Ela”, num registo renovado e profundamente envolvente, conduzido pela voz do cantor, compositor e escritor luso-brasileiro Luca Argel.

Uma travessia musical em novos ritmos

Depois de “Por Este Rio Acima”, interpretado pela cantora uruguaia Nani Medeiros, a viagem de Do Cabo do Mundo prossegue com “Foi por Ela”. Neste tema, a cultura portuguesa cruza o Atlântico e aproxima-se de sonoridades afro-brasileiras através do ijexá, um ritmo de raízes iorubás profundamente enraizado nas tradições musicais e religiosas do Brasil. O resultado é uma pulsação fluida e circular, que não só redesenha as cores emocionais da composição de Fausto, como também reforça as ligações históricas e culturais entre Portugal, África e Brasil.

A escolha do ijexá para esta nova leitura de “Foi por Ela” revela um esforço consciente de traduzir a música de Fausto para um universo contemporâneo e global, sem desvirtuar a sua essência. É uma celebração da viagem enquanto conceito que transcende fronteiras, uma das marcas indeléveis da obra do cantor português.

Luca Argel: a voz do cruzamento de mundos

Luca Argel, natural do Rio de Janeiro mas adotado por Portugal nos últimos anos, é o artista escolhido para dar nova vida a este tema. A sua voz, delicada mas carregada de profundidade, confere à canção uma dimensão simultaneamente íntima e expansiva, desdobrando camadas de emoção que capturam tanto o espírito saudosista da obra original como a frescura da sua reinterpretação.

Argel não é estranho a projectos que cruzam culturas e géneros. A sua carreira tem sido marcada por uma abordagem criativa que navega habilmente entre a música e a palavra escrita, e o seu contributo para Do Cabo do Mundo é mais uma prova dessa capacidade de explorar territórios híbridos. Em “Foi por Ela”, o cantor transforma o tema numa celebração do encontro, da partilha e da (re)descoberta.

Um tributo que é também transformação

Concebido por Carlos Cesar Motta e Fred Martins, Do Cabo do Mundo não se limita a ser uma homenagem ao legado de Fausto Bordalo Dias; é, antes, um exercício de recriação que amplia o impacto da sua obra. O projecto reúne músicos imigrantes residentes em Portugal — entre os quais, para além de Luca Argel e Nani Medeiros, se destacam também Nancy Vieira e Selma Uamusse — e aposta na diversidade de ritmos, timbres e experiências como ponto de partida para uma abordagem contemporânea ao repertório de Fausto.

Mais do que revisitar os hinos do passado, Do Cabo do Mundo procura reinventá-los, sublinhando a sua perenidade e adaptabilidade ao presente. A obra de Fausto, que há muito explora as complexas relações entre os povos de língua portuguesa e a herança cultural do Atlântico, revela-se aqui um terreno fértil para novas leituras e interpretações, capazes de ligar diferentes geografias e narrativas de vida.

Um álbum que promete surpreender

Com o lançamento de “Foi por Ela”, aumenta a expectativa para o álbum completo de Do Cabo do Mundo, previsto para edição digital no próximo dia 10 de julho, seguido de uma edição física em 11 de setembro. O projecto continua a afirmar-se como uma ponte entre mundos, provando que a música é, acima de tudo, uma linguagem universal que transcende barreiras.

Ao cruzar temporalidades, territórios e sensibilidades, Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto não só honra a herança de Fausto Bordalo Dias como a transporta para novas dimensões, transformando-a num reflexo vivo da pluralidade cultural do nosso tempo. Um testemunho de que a música, tal como as viagens que narra, nunca conhece um ponto final.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 8 de maio de 2026

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