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Acordo entre Brasil e Espanha prevê nova fase para a economia criativa e cooperação cultural bilateral

O acordo entre Brasil e Espanha inaugura uma nova era para a economia criativa, promovendo uma cooperação cultural que valoriza a cultura como um motor económico capaz de impulsionar exportações e fortalecer a presença internacional de ambos os países.

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Redação PORTA B

28 de abril de 2026

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Acordo entre Brasil e Espanha prevê nova fase para a economia criativa e cooperação cultural bilateral

Acordo entre Brasil e Espanha impulsiona nova etapa para a economia criativa e cooperação cultural bilateral

A recente assinatura de um acordo entre o Brasil e Espanha marca o início de uma nova fase na colaboração cultural e económica entre os dois países, com um enfoque particular na indústria criativa. Mais do que um mero intercâmbio artístico, o compromisso reconhece a cultura como um ativo económico estruturado, capaz de gerar receitas, fomentar exportações e reforçar o posicionamento internacional de ambos os mercados.

Cultura como motor económico estruturado

Tradicionalmente, a cultura tem sido vista sobretudo como uma expressão artística ou social. Contudo, este acordo entre Brasil e Espanha vai além, tratando a cultura como um sector económico com impacto direto na geração de emprego, rendimento e comércio internacional. Esta abordagem representa uma mudança estratégica que poderá influenciar também o panorama europeu, onde a economia criativa é reconhecida como um dos motores do crescimento sustentável.

A partilha de metodologias, políticas públicas e experiências de gestão entre os dois países visa acelerar a profissionalização do sector cultural. Este é um passo crucial, sobretudo para os agentes culturais independentes que ainda enfrentam barreiras significativas para aceder a mercados internacionais. O reforço destas competências poderá aumentar a competitividade e a capacidade de internacionalização dos criadores e das empresas culturais.

Indicadores económicos e conectividade global

Outro avanço relevante reside na criação de indicadores específicos para medir o impacto económico da cultura. A ausência de dados consistentes tem sido uma limitação para obter financiamento e formular políticas públicas eficazes. A disponibilização de métricas fiáveis é fundamental para demonstrar o valor real da cultura enquanto sector económico, facilitando o acesso a investimentos e à formulação de estratégias de crescimento.

A indústria musical global tem crescido especialmente graças a mercados cada vez mais interligados. Neste contexto, os acordos bilaterais como este tornam-se instrumentos essenciais para expandir a presença internacional dos artistas e produtores. A mobilidade artística, as coproduções e a participação conjunta em festivais previstos no acordo podem reduzir as barreiras burocráticas e os custos inerentes à entrada em novos mercados, fomentando parcerias criativas e turnés conjuntas.

Fortalecimento das micro, pequenas e médias empresas

Para além do sector cultural, a Espanha surge como uma parceira estratégica para a expansão internacional das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) brasileiras, especialmente no comércio exterior. O acordo inclui medidas destinadas a reduzir a distância entre estes empreendedores e o mercado europeu, através da facilitação de crédito para exportação, incentivo à criação de joint ventures e integração em cadeias globais de abastecimento.

Este apoio é particularmente relevante para as indústrias criativas, onde muitas empresas enfrentam dificuldades para escalar as suas operações e aceder a financiamento adequado. A internacionalização facilitada poderá representar uma oportunidade para aumentar a visibilidade global e a sustentabilidade financeira destes agentes culturais.

Integração entre cultura, inovação e tecnologia

Um dos aspetos mais inovadores do acordo é a integração entre cultura e inovação tecnológica. O plano de trabalho para 2026–2028 prevê iniciativas conjuntas em áreas como inteligência artificial (IA), saúde e alterações climáticas, com especial atenção às empresas de base tecnológica e startups.

Esta ligação entre cultura e tecnologia é uma resposta ao crescente impacto da IA na indústria criativa. O acordo inclui diretrizes para o uso ético da tecnologia em serviços públicos, abrindo espaço para o desenvolvimento de soluções digitais que podem transformar a produção, distribuição e consumo cultural e de entretenimento.

Além disso, a cooperação abrange a modernização da gestão do património cultural, incluindo o uso de energias renováveis, e a exploração de minerais críticos para tecnologias digitais e transição energética. Esta visão integrada cria um ecossistema económico mais diversificado e sustentável, que pode servir de modelo para outras parcerias europeias.

Impactos para a indústria musical portuguesa e europeia

Para a indústria musical portuguesa e europeia, este acordo oferece lições e oportunidades importantes. A circulação facilitada de artistas e a criação de redes internacionais podem inspirar estratégias semelhantes no espaço europeu, onde a diversidade cultural e a fragmentação do mercado ainda representam desafios para a internacionalização.

A inclusão das MPMEs culturais no âmbito do acordo também é uma mensagem clara para o mercado europeu, onde estes pequenos agentes formam a base da indústria mas enfrentam obstáculos para crescer e competir a nível global. A aposta na profissionalização, acesso a financiamento e cooperação transnacional poderá ser um caminho para revitalizar o sector musical, especialmente em Portugal, onde o indie e a produção cultural independente têm vindo a ganhar relevância.

Entretanto, a aproximação do Brasil à Espanha pode funcionar como uma porta de entrada para o mercado europeu mais amplo, abrindo oportunidades para artistas, produtoras e outras empresas criativas brasileiras que pretendam estabelecer-se no continente. Este movimento evidencia a importância de criar redes e estruturas que facilitem a adaptação a contextos regulatórios e culturais diversificados.

Perspectiva estratégica e futuro da cooperação

O memorando cultural tem uma duração inicial de cinco anos, com possibilidade de renovação, demonstrando que se trata de uma estratégia de longo prazo e não de uma iniciativa pontual. Esta aposta na cooperação bilateral poderá influenciar o reposicionamento internacional dos dois países, estabelecendo novas dinâmicas que ultrapassam o âmbito cultural, atingindo sectores económicos estratégicos.

Como sintetizou o Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, a relação entre os países é construída por governos, empresas e cidadãos, evidenciando a importância da colaboração em múltiplos níveis para consolidar esta parceria.

Conclusão

Este acordo entre Brasil e Espanha simboliza um passo importante na valorização da cultura enquanto activo económico e potenciador de inovação e internacionalização. Para a indústria musical portuguesa e europeia, representa um exemplo de como a cooperação transnacional pode ser estruturada para apoiar os agentes culturais, especialmente os independentes e as pequenas empresas, num mercado global cada vez mais competitivo e interconectado.

A integração da cultura com a tecnologia, o apoio às MPMEs e a criação de indicadores económicos são elementos que poderão inspirar políticas e práticas no espaço europeu, promovendo um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo da economia criativa. O desafio está agora em assegurar que estas estratégias se traduzam em benefícios concretos para os artistas, produtores e públicos, reforçando a diversidade cultural e a inovação no panorama musical internacional.

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