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Apple Music remove monetização de 2 mil milhões de streams fraudulentos em 2025 e endurece penalizações financeiras

A Apple Music eliminou mais de 2 mil milhões de streams fraudulentos em 2025, reforçando o compromisso com uma distribuição justa de receitas e endurecendo penalizações financeiras para combater manipulações no mercado musical europeu e português.

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Redação PORTA B

19 de fevereiro de 2026

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Apple Music remove monetização de 2 mil milhões de streams fraudulentos em 2025 e endurece penalizações financeiras

Apple Music endurece medidas contra fraudes no streaming: impacto na música portuguesa e europeia

A Apple Music anunciou recentemente uma mudança significativa na sua política de combate à manipulação de streams, uma questão que tem vindo a ganhar cada vez mais relevância num mercado musical cada vez mais digitalizado e automatizado. A plataforma revelou que, só em 2025, removeu mais de 2 mil milhões de execuções fraudulentas, reforçando o compromisso com a transparência e a justiça na distribuição de receitas para artistas e produtores legítimos. Esta medida surge num momento em que o volume de músicas geradas por inteligência artificial (IA) e os debates sobre fraude em larga escala têm dominado a indústria.

Novas penalizações financeiras e responsabilidade dos distribuidores

Uma das mudanças mais significativas anunciadas pela Apple Music é o aumento das penalidades financeiras para distribuidores digitais que permitam a manipulação comprovada de streams. A empresa já operava, desde 2022, com um sistema de multas progressivas, que variavam entre 5% e 25% dos royalties associados a conteúdos fraudulentos. A partir de agora, esses valores podem chegar aos 50%, dependendo da gravidade e da reincidência de cada caso.

Segundo Oliver Schusser, vice-presidente da Apple Music, as execuções fraudulentas não só deixam de ser contabilizadas, como os valores indevidamente pagos são reintegrados no "pool" de royalties, para que sejam redistribuídos de forma mais justa. Esta postura da empresa coloca uma pressão acrescida nos distribuidores, que funcionam como os intermediários entre os artistas e as plataformas de streaming. A Apple deixa claro que a responsabilidade sobre a autenticidade do conteúdo recai também sobre estes intermediários, assinalando que a manipulação de streams não será tolerada.

Embora a Apple não tenha especificado critérios concretos para o banimento definitivo de artistas ou distribuidores envolvidos em fraudes, o aumento das multas aponta para um esforço em tornar estas práticas financeiramente inviáveis, especialmente num contexto onde surgem cada vez mais contas e projetos efémeros, muitas vezes criados unicamente para explorar falhas no sistema.

A fraude no streaming: um problema global com impacto local

De acordo com a Apple Music, menos de 1% de todos os streams na sua plataforma são manipulados, com a média global estimada a rondar os 0,3%. Apesar de aparentemente baixo, este número ganha relevância quando se considera o volume colossal de execuções anuais. A remoção de 2 mil milhões de execuções fraudulentas em 2025 demonstra a dimensão do problema, mesmo numa plataforma com sistemas de validação considerados robustos.

Mas qual o impacto destas medidas numa escala mais local, nomeadamente na indústria musical portuguesa e europeia? Para artistas independentes e editoras menores, que frequentemente dependem de distribuidores digitais para alcançar um público mais vasto, estas regras mais severas podem ter efeitos positivos e negativos. Por um lado, garantem uma maior transparência e combatem práticas desleais que prejudicam artistas legítimos. Por outro, podem criar barreiras adicionais para quem já enfrenta dificuldades em obter visibilidade em plataformas globais dominadas por gigantes da indústria.

Em Portugal, onde o mercado musical é caracterizado por uma forte presença de artistas independentes e pequenas editoras, estas mudanças podem ser vistas como uma faca de dois gumes. A pressão sobre os distribuidores para garantir a autenticidade dos conteúdos poderá levar a uma maior cautela na aceitação de novos artistas e álbuns, o que pode dificultar a entrada de novos talentos no mercado digital. Por outro lado, a redistribuição de receitas para artistas legítimos pode ajudar a equilibrar um mercado onde a concorrência é feroz e muitas vezes desleal.

O papel da inteligência artificial e o futuro do streaming

Outro ponto de destaque na declaração da Apple Music é a abordagem à música gerada por inteligência artificial. Apesar de rejeitar, pelo menos para já, um banimento explícito de músicas criadas com recurso a IA, a empresa reconhece a necessidade de um debate mais amplo sobre os limites éticos e legais desta tecnologia na indústria musical. Em particular, Schusser apelou às editoras e aos intervenientes do setor para trabalharem em conjunto na definição de políticas claras em relação à utilização da IA na composição, produção e interpretação musical.

Embora a Apple Music não tenha confirmado um bloqueio direto a conteúdos gerados por IA, foi divulgado que a empresa já utiliza ferramentas internas para limitar a presença destas faixas em playlists editoriais e sistemas de recomendação. Esta abordagem cautelosa reflete a complexidade do tema, especialmente numa altura em que a tecnologia avança a um ritmo acelerado e desafia os modelos tradicionais de criação e monetização musical.

Análise crítica: o que estas mudanças significam para a Europa?

No contexto europeu, onde as plataformas de streaming têm vindo a moldar de forma significativa os hábitos de consumo musical, as medidas da Apple Music podem ser vistas como um passo importante para garantir a sustentabilidade da indústria. Contudo, é fundamental que estas políticas sejam acompanhadas por uma maior transparência na sua aplicação e por uma colaboração mais estreita entre plataformas, distribuidores e criadores.

O desafio de combater a fraude no streaming não é apenas técnico, mas também político e cultural. Em mercados menores, como o português, onde os artistas têm frequentemente menos recursos para investir em promoção e visibilidade, é crucial que estas medidas não prejudiquem ainda mais os músicos independentes. A redistribuição de receitas pode ser uma boa notícia, mas só será realmente eficaz se for acompanhada por um esforço para promover uma maior equidade no acesso às plataformas globais.

Por outro lado, a questão da inteligência artificial levanta preocupações adicionais sobre o futuro da criatividade na música. A Europa, com a sua longa tradição cultural e regulamentação mais rigorosa em relação ao uso de tecnologias emergentes, pode desempenhar um papel central no debate sobre a ética da IA na música. No entanto, é essencial que este debate seja inclusivo e que envolva não só grandes empresas e editoras, mas também artistas independentes e pequenos produtores.

As mudanças anunciadas pela Apple Music são, sem dúvida, um marco na luta contra a fraude no streaming. No entanto, o seu sucesso dependerá da capacidade do setor musical, tanto a nível global como local, para se adaptar e evoluir num cenário em rápida transformação. Para Portugal e para a Europa, este é um momento crucial para reforçar os alicerces de uma indústria musical mais justa, inovadora e sustentável.

PORTA B — Este artigo representa a perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.