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CEO da Suno compara app ao Ozempic da música: “Toda a gente usa, mas ninguém quer admitir”

Avaliada em 2,45 mil milhões de dólares, a Suno promete revolucionar a criação musical com inteligência artificial, mas levanta questões éticas e económicas que dividem a indústria. "É o Ozempic da música", afirma o CEO, referindo-se à sua adoção discreta, mas impactante.

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Redação PORTA B

19 de fevereiro de 2026

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CEO da Suno compara app ao Ozempic da música: “Toda a gente usa, mas ninguém quer admitir”

A revolução da criação musical: inteligência artificial e os desafios éticos e económicos

Avaliada em 2,45 mil milhões de dólares, a Suno está no epicentro de uma nova revolução na indústria musical. Esta plataforma utiliza inteligência artificial (IA) para gerar músicas completas a partir de comandos de texto simples. Para uns, é uma abordagem visionária que pode transformar a música gravada; para outros, representa uma ameaça a um setor já fragilizado pela era do streaming.

O CEO da Suno, Shulman, descreveu recentemente a sua aplicação como o "Ozempic da música" – uma ferramenta que muitos utilizam, mas poucos admitem publicamente. Esta analogia, que compara a plataforma ao popular medicamento para perda de peso utilizado discretamente, reflete a tensão que envolve a adoção da IA na criação artística.

Criação musical ao alcance de todos?

Fundada há pouco mais de dois anos, a Suno oferece aos utilizadores a possibilidade de criar músicas a partir de descrições como "pop confessional de estádio" ou "country emocional com referências a relações passadas". Embora o sistema não permita replicar diretamente o estilo de artistas específicos, os resultados gerados são, muitas vezes, surpreendentemente reconhecíveis.

Shulman afirma que o objetivo da Suno não é substituir músicos, mas sim oferecer um novo paradigma para a música gravada. Na visão do CEO, o futuro da música reside na criação de faixas que possam ser constantemente modificadas, remixadas e partilhadas, integrando num mesmo espaço digital o ato de criar e consumir música. Para ele, a evolução tecnológica sempre moldou a forma como a música é produzida e distribuída, e a IA é apenas mais um passo nesse percurso histórico, tal como o foram o sampler ou os estúdios caseiros.

Contudo, a proposta da Suno não está isenta de polémica. O setor da música – já sob pressão devido à predominância de modelos de streaming que desvalorizam a remuneração de artistas – enfrenta agora o desafio de lidar com sistemas que geram conteúdos potencialmente concorrentes às criações humanas.

Financiamento milionário e dúvidas sobre sustentabilidade

Apesar das críticas, a Suno continua a atrair significativos investimentos. Apenas em novembro, a empresa angariou 250 milhões de dólares numa ronda de financiamento, elevando a sua avaliação para 2,45 mil milhões de dólares. No entanto, o crescimento da base de utilizadores levanta questões sobre a viabilidade económica a longo prazo. Com cerca de 1 milhão de assinantes pagantes, a plataforma oferece planos mensais a partir de 10 dólares, um número que, para muitos analistas, parece pequeno face às expectativas de retorno dos investidores.

Shulman acredita que o verdadeiro valor da Suno ainda não foi totalmente compreendido pelos investidores. "A música tem um impacto cultural e económico muito maior do que a maioria das pessoas percebe", afirma o CEO, defendendo que, uma vez evidenciado esse impacto, o potencial de escala da plataforma se tornará mais claro.

Questões éticas, legais e o impacto na Europa

A ascensão de plataformas como a Suno não é apenas uma questão tecnológica; é também um debate ético, jurídico e cultural. A indústria musical tem contestado a alegação de "uso justo" promovida por estas ferramentas de IA, argumentando que geram conteúdos que competem diretamente com obras originais e colocam em risco os direitos de autores e intérpretes.

No contexto europeu, onde a proteção dos direitos de autor é uma questão particularmente sensível, a integração de tecnologias como a Suno pode criar novos precedentes legais. A União Europeia tem vindo a reforçar a legislação sobre direitos digitais nos últimos anos, mas será que estas medidas serão suficientes para responder a esta nova vaga de inovação? A música portuguesa, especialmente os géneros mais tradicionais, poderá enfrentar dificuldades acrescidas para se manter relevante num mercado cada vez mais dominado por algoritmos e produções automatizadas.

Uma mudança no papel do criador?

A comparação entre a IA musical e o Ozempic sublinha a natureza discreta e, por vezes, controversa da sua utilização. Tal como o medicamento é visto como uma forma rápida de resolver problemas de peso, a IA musical promete eficiência na produção de conteúdos, mas levanta questões sobre autenticidade e o papel do criador. Shulman defende que a maioria das pessoas não aprecia o tempo que investe na criação musical e que a sua tecnologia permite explorar significados mais pessoais, como as músicas que criou com o seu filho.

Ainda assim, para muitos profissionais da música, esta abordagem reduz a criação artística a um processo meramente técnico. A arte, argumentam, não pode ser completamente dissociada da experiência humana, da emoção e da intencionalidade.

O futuro da música no cruzamento entre humanos e algoritmos

O caminho para o futuro de plataformas como a Suno dependerá de acordos de licenciamento, decisões judiciais e da forma como artistas e plataformas irão coexistir num cenário partilhado entre criação humana e algoritmos. Na Europa, a resistência cultural e a regulamentação mais estrita podem atrasar a adoção destas tecnologias, mas é inegável que a discussão está longe de terminar.

Embora a promessa de uma criação musical democratizada possa ser atraente, é crucial considerar o impacto desta transformação na diversidade cultural e na sustentabilidade da própria indústria. Num setor que sempre se equilibrou entre inovação e tradição, a questão central permanece: será a inteligência artificial um aliado ou um concorrente na preservação da criatividade humana?

PORTA B — Este artigo representa a perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.