Coligação de artistas independentes processa Google e acusa utilização de milhões de músicas para treinar IA
Uma coligação de artistas independentes processa o Google por alegadamente usar milhões de músicas sem autorização para treinar inteligência artificial, levantando questões cruciais sobre direitos de autor na era digital.
Redação PORTA B
16 de março de 2026

Coalizão de artistas independentes processa Google por uso de milhões de músicas em treino de IA
Uma nova disputa judicial nos Estados Unidos está a lançar um holofote sobre uma questão cada vez mais premente na indústria musical: até que ponto as empresas tecnológicas podem utilizar obras criativas existentes para treinar ferramentas de inteligência artificial (IA) sem obterem o consentimento direto dos seus criadores?
Uma coalizão de artistas independentes acusa a gigante tecnológica Google de utilizar milhões de músicas, sem autorização, para treinar os seus modelos de IA. De acordo com os dados apresentados no processo, o modelo de IA em questão terá sido treinado com pelo menos 44 milhões de excertos de áudio e cerca de 280 mil horas de música. Este material teria sido obtido, sobretudo, a partir de vídeos publicados no YouTube, plataforma também detida pela Google.
Remoção de metadados: o apagamento dos autores
Uma das acusações mais graves feitas no processo prende-se com a alegada remoção de informações de identificação de direitos de autor das faixas utilizadas. Estes metadados, conhecidos como CMI (Copyright Management Information), desempenham um papel crucial na proteção dos criadores, uma vez que indicam quem são os autores e os titulares dos direitos sobre cada obra.
Os advogados da coalizão argumentam que a supressão deliberada destes metadados dificulta o rastreamento da origem das músicas utilizadas e cria uma barreira para os artistas que pretendam proteger os seus direitos. Este tipo de prática não só compromete a transparência no uso de obras criativas, como também abre precedentes preocupantes para futuras interações entre a tecnologia e a propriedade intelectual.
Google sob pressão: o uso do Content ID
Outro ponto de destaque do processo é a alegação de que o Google terá tirado partido do seu sistema de Content ID para aceder ilegalmente a um vasto catálogo de conteúdos musicais. Este sistema, originalmente criado para identificar e gerir conteúdos protegidos por direitos de autor no YouTube, inclui uma vasta base de dados com mais de 50 milhões de ficheiros de referência enviados pelos próprios titulares dos direitos.
Os autores do processo consideram que, ao utilizar esta base de dados, o Google demonstrou pleno conhecimento sobre a identidade dos criadores das obras usadas nos treinos de IA. Para os músicos independentes, esta prática é uma exploração descarada do seu trabalho criativo e uma violação dos princípios básicos de ética e legalidade.
“Não é inovação, é roubo em escala”
A indignação dos artistas é evidente. Segundo a declaração de Kimbarovsky, um dos representantes da coalizão, “os artistas independentes escrevem as músicas, gravam os vocais e constroem as suas carreiras com estas obras. O Google copiou o trabalho de milhões deles, removeu os seus nomes e lançou um produto concorrente para 750 milhões de pessoas. Isso não é inovação. É roubo em escala”.
A acusação não se limita a questões de direitos de autor. O processo inclui ainda denúncias de fraude, publicidade enganosa e distribuição ilegal de conteúdos. Os autores da ação sublinham que o Google não especificou as licenças obtidas para o treino dos seus modelos de IA, nem disponibilizou mecanismos que permitissem aos artistas autorizarem ou recusarem o uso das suas obras.
Análise crítica: o impacto na indústria musical portuguesa e europeia
Se, à primeira vista, este conflito pode parecer distante da realidade europeia e, em particular, da portuguesa, as suas implicações são, na verdade, profundas e globais. A indústria musical portuguesa, que já enfrenta desafios significativos devido à digitalização e à fragmentação de receitas, não está imune aos impactos destas práticas.
Num setor onde os artistas independentes já têm de lutar arduamente por reconhecimento e remuneração justa, o uso não autorizado de obras para treino de IA representa mais um golpe na sustentabilidade das suas carreiras. Em Portugal, onde o mercado musical é marcado por uma forte presença de artistas emergentes e projetos independentes, a utilização indevida de material criativo pode agravar ainda mais as dificuldades financeiras enfrentadas por muitos músicos.
Além disso, a questão da remoção de metadados coloca em risco o já frágil sistema de proteção de direitos de autor. Sem mecanismos robustos para identificar e rastrear as obras utilizadas, os criadores europeus e portugueses podem ver-se privados das receitas que lhes são devidas, enquanto as grandes empresas tecnológicas continuam a lucrar com os seus trabalhos.
A nível europeu, esta disputa poderá acelerar a discussão em torno de regulamentações mais rigorosas para o uso de conteúdos protegidos por direitos de autor em tecnologias de IA. A União Europeia já deu passos importantes com a Diretiva de Direitos de Autor no Mercado Único Digital, mas casos como este evidenciam a necessidade de revisão e atualização contínua.
A introdução de medidas específicas que obriguem as empresas tecnológicas a obterem licenças claras e a respeitarem os metadados pode ser um caminho para equilibrar a balança entre inovação tecnológica e proteção dos criadores. Contudo, será necessária uma forte pressão do setor cultural para garantir que os interesses dos artistas sejam devidamente representados nas discussões políticas.
Conclusão
O processo movido contra o Google nos Estados Unidos não é apenas um litígio entre uma gigante tecnológica e um grupo de artistas independentes. Trata-se de uma batalha mais ampla pela preservação dos direitos dos criadores num mundo cada vez mais dominado pela tecnologia.
Para a indústria musical portuguesa e europeia, este é um momento de reflexão e, sobretudo, de ação. O equilíbrio entre inovação tecnológica e justiça para os criadores não é apenas uma questão ética, mas também uma necessidade para garantir a sustentabilidade de um setor que é a alma da cultura contemporânea.
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