Deezer lança Flow Tuner e deixa de incluir músicas geradas por IA nas recomendações do Flow
O Flow Tuner da Deezer revoluciona a experiência musical ao permitir que cada utilizador ajuste, em tempo real, os géneros e subgéneros que quer ouvir, tornando as recomendações ainda mais personalizadas. Além disso, a plataforma deixa de incluir músicas geradas por IA nas playlists do Flow, reforçando o compromisso com a autenticidade musical.
Redação PORTA B
19 de fevereiro de 2026

Flow Tuner: Deezer Reinventa a Personalização das Recomendações Musicais
Desde a sua criação, em 2014, o Flow da Deezer destacou-se por proporcionar uma experiência musical contínua, baseada no histórico de audição dos utilizadores. A plataforma, que ganhou notoriedade pela sua capacidade de oferecer playlists infinitas adaptadas ao gosto de cada pessoa, entra agora numa nova fase com o lançamento do Flow Tuner. Este novo recurso permite, pela primeira vez, que os ouvintes tenham um controlo directo sobre os géneros e subgéneros musicais que desejam ouvir, dispensando a necessidade de “ensinar” lentamente o algoritmo através de gostos, rejeições ou saltos de faixa.
No centro desta inovação está o Flow Tuner, uma espécie de painel de controlo do algoritmo integrado na aplicação da Deezer. Com apenas alguns toques, o utilizador pode seleccionar ou excluir estilos musicais, moldando não só a sessão actual, mas também influenciando as recomendações futuras. Esta abordagem representa uma inversão significativa face ao padrão tradicional da indústria, que sempre privilegiou a reacção passiva do público – gostos, dislikes e skips como sinais principais para os sistemas de recomendação.
O novo paradigma coloca a decisão nas mãos do ouvinte, permitindo uma escolha activa e imediata. O utilizador deixa de depender do tempo de aprendizagem do algoritmo, podendo definir instantaneamente o perfil musical desejado. Segundo a Deezer, esta funcionalidade assenta na ideia de que as recomendações não devem ser uma “caixa negra”: os ouvintes querem encontrar a música certa para cada momento e exercer influência real sobre esse processo.
Exclusão de Músicas Geradas por Inteligência Artificial
Além da personalização de géneros, a Deezer introduz outra medida relevante: a exclusão de faixas inteiramente geradas por sistemas automatizados das sugestões algorítmicas do Flow. Esta posição, sustentada por tecnologia própria de detecção de conteúdos criados por IA, marca uma tomada de posição firme numa altura em que a discussão sobre o impacto da inteligência artificial na música está ao rubro.
A Deezer registou, no ano passado, duas patentes relativas a sistemas de identificação de músicas produzidas por IA, demonstrando o seu compromisso com a transparência e a autenticidade. De acordo com dados recentes, a plataforma recebe diariamente mais de 60 mil faixas geradas por inteligência artificial, o que evidencia a dimensão do desafio enfrentado pelos serviços de streaming. A empresa sinaliza ainda que pretende disponibilizar esta tecnologia de detecção ao mercado, contribuindo para um ecossistema digital mais transparente.
Num sector onde a origem dos conteúdos se torna cada vez mais relevante, o controlo sobre o algoritmo assume uma nova importância: não se trata apenas de filtrar géneros musicais, mas também de garantir que a recomendação privilegia a criação humana, protegendo os artistas e os seus direitos.
O Impacto na Indústria Musical Portuguesa e Europeia
A decisão da Deezer de tornar o algoritmo configurável e de excluir músicas geradas por IA das recomendações tem implicações directas para a indústria musical em Portugal e na Europa. Num contexto onde o streaming domina o consumo musical, a curadoria automatizada define grande parte da visibilidade dos artistas e do acesso do público ao catálogo disponível. Ao permitir que o utilizador escolha activamente o que quer ouvir, a Deezer devolve parte do poder às mãos dos ouvintes e dos criadores.
Para os músicos portugueses, o controlo sobre a recomendação pode traduzir-se numa maior valorização das obras originais e numa redução do ruído provocado pelas faixas automáticas, frequentemente associadas a práticas de manipulação de números de audições. Em mercados mais pequenos, como o português, esta filtragem é crucial para garantir que os artistas locais não são eclipsados por uma avalanche de conteúdos massificados, sem identidade ou contexto cultural.
Por outro lado, a opção de excluir músicas geradas por IA levanta questões sobre o futuro da criatividade musical. A inteligência artificial tem sido vista como uma ferramenta capaz de expandir os limites da produção, mas também como uma ameaça à autenticidade e ao valor do trabalho artístico. A estratégia da Deezer pode incentivar outros serviços de streaming a adoptar medidas semelhantes, promovendo um debate mais alargado sobre a regulação e o impacto da IA na música europeia.
Uma Nova Era de Autonomia e Transparência
A Deezer, fundada em Paris em 2007 e cotada na Euronext, atravessa um período de mudança. Apesar de uma ligeira queda nas receitas no terceiro trimestre de 2025, a empresa aposta na inovação como resposta à exigência crescente de transparência e autonomia por parte dos utilizadores. Ao tornar o algoritmo uma ferramenta ajustável e ao filtrar conteúdos de origem artificial, a Deezer posiciona-se como pioneira num mercado cada vez mais competitivo e fragmentado.
Esta transformação pode ser vista como uma oportunidade para revalorizar a ligação entre o público e os criadores, devolvendo ao ouvinte o direito de decidir e ao artista o reconhecimento devido. Num cenário europeu onde a identidade musical é central para a diversidade cultural, o Flow Tuner e a exclusão de faixas de IA representam passos importantes para garantir que a tecnologia serve, e não substitui, a criatividade humana.
No panorama português, este movimento poderá reforçar a relevância da produção nacional, promovendo uma curadoria mais justa e personalizada. Resta acompanhar de que forma outros players do sector responderão a este desafio e como os artistas portugueses poderão beneficiar de uma plataforma mais transparente e centrada na autenticidade.
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