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Deezer diz que faixas feitas por IA já representam 44% dos novos envios para a plataforma

Quase metade das novas faixas enviadas para a Deezer são produzidas por inteligência artificial, mas o seu consumo permanece reduzido e muitas reproduções são consideradas fraudulentas, levantando desafios para a indústria musical.

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Redação PORTA B

22 de abril de 2026

5 min de leitura|59 leituras
Deezer diz que faixas feitas por IA já representam 44% dos novos envios para a plataforma

Deezer revela que quase metade das novas faixas enviadas são produzidas por inteligência artificial

A Deezer, uma das maiores plataformas de streaming musical a nível mundial, divulgou dados que evidenciam uma mudança profunda na produção musical contemporânea. Segundo a empresa, cerca de 44% das faixas submetidas recentemente à plataforma foram criadas com recurso à inteligência artificial (IA). Contudo, apesar deste elevado volume de conteúdo gerado automaticamente, o consumo dessas músicas mantém-se residual, representando apenas entre 1% e 3% do total de streams dentro da plataforma. Um dado ainda mais preocupante é que 85% dessas reproduções são classificadas como fraudulentas, levando à desmonetização dessas faixas.

Medidas para conter o impacto da produção massiva por IA

Para fazer face aos desafios desta nova realidade, a Deezer anunciou que deixou de armazenar versões em alta resolução das faixas produzidas por IA. Este passo integra um conjunto de medidas que a empresa tem vindo a implementar para limitar a influência das músicas sintéticas no seu catálogo. A plataforma reforça que continua a detectar, identificar e rotular estes conteúdos, removendo-os das recomendações algorítmicas e excluindo-os das playlists editoriais.

Estas ações pretendem combater dois problemas interligados: a saturação do catálogo com músicas produzidas em massa e a manipulação dos sistemas de streaming através de esquemas fraudulentos que distorcem a distribuição de royalties, prejudicando artistas que criam conteúdo original e de qualidade.

Transparência como bandeira e fator diferenciador

A Deezer destaca-se no mercado por ser a única plataforma que sinaliza de forma explícita às audiências quando uma faixa foi gerada por inteligência artificial. Em 2025, já identificou e rotulou mais de 13,4 milhões de faixas deste género, numa tentativa de trazer maior transparência a um setor onde este tipo de conteúdo pode ser facilmente confundido com produções humanas.

Este posicionamento traduz uma estratégia que vai para lá da simples moderação: a empresa tenta estabelecer um padrão ético e operacional para o futuro do streaming, alertando para os riscos associados à proliferação descontrolada de conteúdo sintético. Segundo a Deezer, a sua tecnologia de deteção e as medidas proativas implementadas ao longo do último ano têm mostrado que é possível minimizar fraudes e proteger os pagamentos aos artistas.

Impacto na indústria musical portuguesa e europeia

A crescente presença da IA na produção musical coloca desafios significativos para a indústria em Portugal e na Europa. Por um lado, abre novas possibilidades criativas e democratiza o acesso à produção musical, permitindo que novos artistas experimentem e lancem música sem os custos tradicionais. Por outro, ameaça desvalorizar o trabalho artístico ao inundar o mercado com faixas produzidas em massa, muitas vezes sem qualidade ou valor cultural relevante.

Esta proliferação pode pressionar o sistema de remuneração baseado em streaming, que já é criticado pela forma como distribui royalties. Se o volume de faixas sintetizadas continuar a crescer sem uma regulamentação clara, os artistas que investem tempo, talento e dinheiro na criação de música poderão ver os seus rendimentos ainda mais diluídos.

No contexto europeu, onde existe um esforço crescente para proteger os direitos dos criadores e fomentar a diversidade cultural, a situação exige uma resposta concertada. É fundamental estabelecer regras claras para a identificação e remuneração das produções feitas por IA, garantindo que a inovação tecnológica não comprometa a sustentabilidade dos criadores de música.

A perceção dos ouvintes e a necessidade de regulamentos

Um estudo recente indica que 80% dos consumidores concordam que músicas totalmente geradas por máquinas devem ser claramente identificadas. Além disso, 73% gostariam de saber quando este tipo de conteúdo lhes é recomendado por serviços de streaming. Estes números evidenciam uma preocupação crescente do público relativamente à autenticidade e transparência do conteúdo musical que consome.

Apesar da tecnologia já alcançar uma escala significativa, a maioria dos ouvintes ainda não consegue distinguir entre produções humanas e sintéticas, o que pode gerar desconfiança e prejudicar a relação entre artistas, plataformas e público. A ausência de um padrão comum na sinalização deste tipo de conteúdo deixa o setor numa situação de incerteza, onde cada plataforma pode adotar políticas distintas.

Conclusão: entre inovação e regulação

A movimentação da Deezer, ao assumir um papel pioneiro na identificação e controlo do conteúdo musical gerado por IA, lança um alerta para todo o setor do streaming. O desafio que se coloca é equilibrar a inovação tecnológica com a proteção dos direitos dos artistas e a qualidade do catálogo musical disponibilizado.

Se as plataformas optarem por tratar a música produzida por IA simplesmente como mais um género, sem regras específicas, arriscam-se a perpetuar problemas de fraude, diluição de pagamentos e perda de diversidade artística. Por outro lado, uma abordagem regulatória clara e concertada pode criar um ambiente mais justo e sustentável, onde a IA é integrada como uma ferramenta complementar, não uma ameaça existencial.

Portugal e a Europa têm aqui uma oportunidade para liderar na definição de políticas que salvaguardem os interesses dos criadores e preservem a riqueza cultural da música, enquanto exploram as potencialidades das novas tecnologias. A transparência, a ética e a inovação deverão ser os pilares desta nova era da indústria musical.

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