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Deezer: artistas femininas representam apenas 27% das reproduções e Women’s Chart chega a seis novos países

Artistas femininas representam apenas 27% das reproduções na Deezer, mas o Women’s Chart, que celebra o talento feminino, expande-se agora para seis novos países, promovendo maior visibilidade no streaming global.

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Redação PORTA B

10 de março de 2026

5 min de leitura|67 leituras
Deezer: artistas femininas representam apenas 27% das reproduções e Women’s Chart chega a seis novos países

Deezer: artistas mulheres representam apenas 27% das reproduções e Women’s Chart chega a seis novos países

Em março de 2025, a Deezer lançou o Women’s Chart, um ranking que mensalmente destaca as 50 músicas mais ouvidas de artistas mulheres dentro da plataforma. A iniciativa nasceu com o objetivo de aumentar a visibilidade feminina num setor onde as mulheres ainda enfrentam sub-representação nos rankings tradicionais de streaming.

Com a mais recente atualização, o Women’s Chart expandiu a sua presença para mais seis países: Sérvia, Bulgária, Países Baixos, Dinamarca, Croácia e Polónia. Estes mercados juntam-se a outros territórios onde o ranking já está ativo, como França, Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México. A chegada a novos mercados reflete o compromisso da plataforma em abordar esta desigualdade numa escala global.

De acordo com a Deezer, a criação deste ranking específico foi motivada por um diagnóstico claro: apesar de desempenharem um papel fundamental na música, as mulheres continuam a ter uma presença reduzida nas paradas mais abrangentes. Tal cenário levanta questões sobre as dinâmicas de destaque e consumo musical dentro das plataformas de streaming.

Reflexão e transformação através do consumo consciente

Em fevereiro de 2026, a média global de reproduções de artistas mulheres na plataforma foi de apenas 27%. Embora este número represente uma ligeira subida de um ponto percentual em relação a setembro de 2025, revela ainda um desequilíbrio evidente nas preferências de consumo dos utilizadores. A proposta da Deezer é transformar este dado estatístico num momento de reflexão individual: ao acederem à percentagem de músicas de artistas mulheres no seu histórico de audição, os utilizadores podem confrontar-se com o seu próprio comportamento enquanto ouvintes.

Esta abordagem, que alia dados a uma dimensão pessoal, visa sensibilizar os utilizadores para os desafios enfrentados pelas mulheres na indústria musical. É uma tentativa de fomentar um consumo musical mais consciente, que valorize a diversidade de vozes e estilos disponíveis.

Iniciativas editoriais para amplificar vozes femininas

Além do Women’s Chart, a Deezer implementou outras iniciativas editoriais para destacar o trabalho de artistas mulheres. Durante o mês de março, em celebração do Dia Internacional da Mulher, a plataforma tem vindo a promover conteúdos dedicados exclusivamente a mulheres, como a playlist personalizada “100% Female Artists”. Esta ferramenta, que se adapta ao perfil musical de cada utilizador, cria uma seleção de músicas exclusivamente interpretadas por artistas femininas, promovendo uma experiência de descoberta única.

“Com as editoras mulheres do Deezer à escala global, quisemos tornar a experiência de audição mais humana”, afirma uma representante da plataforma. “Esta playlist cria um diálogo entre estilos e territórios, destacando as vozes femininas que moldam a música. A música torna-se ainda mais poderosa quando conta histórias diversas, especialmente quando essas histórias são construídas coletivamente.”

As playlists editoriais, métricas de escuta e recomendações personalizadas são, portanto, ferramentas integradas que procuram aumentar a visibilidade feminina no universo do streaming. Além disso, estas funcionalidades conectam os ouvintes a uma vasta gama de talentos e estilos, sublinhando a riqueza e diversidade da música criada por mulheres.

Análise crítica: impacto na indústria musical portuguesa e europeia

Embora iniciativas como o Women’s Chart representem um passo importante para corrigir desequilíbrios históricos no setor musical, importa analisar o seu impacto no contexto europeu e, particularmente, na realidade portuguesa. Em Portugal, tal como em muitos outros países europeus, o panorama musical continua a ser dominado por artistas masculinos, tanto nas tabelas de vendas como nas rádios. A introdução de ferramentas que promovam a equidade de género na música pode ser um contributo significativo para alterar esta narrativa.

Contudo, há questões que merecem reflexão. Será que a criação de rankings e playlists exclusivas para mulheres não corre o risco de perpetuar uma segregação dentro da indústria? Apesar das boas intenções, é crucial garantir que estas iniciativas não marginalizem ainda mais as artistas mulheres, confinando-as a espaços específicos em vez de promoverem a sua inclusão nos rankings principais.

Além disso, o impacto destas ferramentas depende muito da forma como os utilizadores as adotam. No caso português, onde o consumo de música digital ainda está a crescer, será necessário um esforço adicional em termos de sensibilização para que estas ações se traduzam em mudanças concretas no comportamento do público. A colaboração com artistas locais, rádios e outros agentes do setor cultural pode ser determinante para o sucesso destas iniciativas.

Por outro lado, a expansão do Women’s Chart para países como a Dinamarca, os Países Baixos e a Polónia é um sinal de que a desigualdade de género na música não é um problema isolado, mas sim uma questão transversal, independentemente do grau de desenvolvimento dos mercados musicais. Este quadro reforça a ideia de que a indústria musical europeia, como um todo, precisa de se unir para criar um cenário mais igualitário.

Por fim, deve considerar-se a sustentabilidade e a longevidade destas ações. Para que mudanças estruturais se consolidem, é necessário um investimento contínuo e uma abordagem que vá além do simbolismo. A celebração de um Dia Internacional da Mulher ou a criação de uma playlist dedicada são passos válidos, mas insuficientes se não forem acompanhados de políticas concretas que promovam a igualdade de oportunidades para artistas de todos os géneros.

Conclusão

A expansão do Women’s Chart para novos mercados europeus é um sinal positivo de que há esforços no sentido de equilibrar a representação de género na indústria musical. Contudo, o caminho para a verdadeira igualdade passa por uma estratégia integrada que vá além das plataformas de streaming e envolva toda a cadeia de valor da música. Em Portugal e na Europa, resta saber até que ponto estas iniciativas conseguirão provocar mudanças duradouras num sistema que, até agora, tem falhado em refletir a diversidade da sociedade.

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