Dia Mundial do Livro: com apenas 52% de leitores em Portugal, mercado musical aponta caminhos entre criatividade e formação artística
No Dia Mundial do Livro, emerge a reflexão sobre como o hábito da leitura pode potenciar a criatividade artística, oferecendo à indústria musical novas perspectivas entre formação e inovação.
Redação PORTA B
23 de abril de 2026

O papel da leitura na formação de artistas e o impacto na indústria musical
No Dia Mundial do Livro, é pertinente reflectir sobre a relação entre a leitura e a criatividade artística, nomeadamente no contexto da indústria musical. Dados recentes indicam que apenas 52% da população brasileira tem o hábito de ler e que a média de leitura é de 2,6 livros por pessoa ao ano, sendo que apenas 1,3 desses livros são lidos por iniciativa própria. Apesar de os números dizerem respeito ao Brasil, a realidade não está assim tão distante em Portugal e em muitos outros países europeus, onde o consumo de cultura escrita também enfrenta desafios significativos.
Este panorama – que revela uma forte ligação entre a leitura e obrigações académicas ou profissionais, em detrimento de um interesse espontâneo – tem impacto directo na formação cultural e criativa, com consequências que vão muito além do universo literário. No caso da música, a leitura emerge como um pilar estratégico, tanto na formação artística como na gestão de carreiras num mercado cada vez mais competitivo e orientado por algoritmos e consumo rápido.
Leitura como ferramenta de formação artística e profissional
No contexto actual da música, em que as decisões são frequentemente moldadas por dados e métricas de plataformas digitais, a leitura oferece um contraponto valioso. Obras dedicadas à criatividade e ao empreendedorismo têm vindo a desempenhar um papel crucial na capacitação de artistas e profissionais do sector. Para além de fornecerem um enquadramento teórico, estes livros ajudam a desenvolver competências práticas, desde a gestão de equipas até à definição de um posicionamento claro no mercado.
Além disso, a leitura de romances, ficção ou biografias de músicos proporciona um repertório emocional e narrativo que pode enriquecer a criação artística. Letras de canções, conceitos de álbuns e até mesmo projectos inteiros são frequentemente inspirados por experiências literárias. Através destas leituras, os artistas conseguem uma maior profundidade na construção das suas identidades criativas e um entendimento mais abrangente das suas influências culturais.
Em Portugal, onde a música desempenha um papel central na cultura nacional – com géneros como o fado, o rock português ou a música tradicional a ocuparem um lugar de destaque –, a leitura pode ser um recurso valioso para artistas que procuram inovar sem perder a ligação às suas raízes. Por exemplo, compreender o contexto histórico e cultural de géneros musicais como o fado ou o cante alentejano pode ajudar os artistas a renovarem estas tradições de forma autêntica.
Narrativas culturais e a importância de "olhar para trás"
Um dos argumentos frequentemente levantados por artistas e académicos é que a leitura oferece uma oportunidade única para explorar as origens culturais e históricas que moldam a música de uma determinada sociedade. Um exemplo disso é a recomendação de obras como Um Defeito de Cor, que, embora não trate directamente da música, oferece um retrato aprofundado da história e cultura afrodescendentes no Brasil. Este tipo de leitura ajuda a compreender como a confluência de diversas tradições culturais deu origem a géneros musicais marcantes.
Neste sentido, em Portugal, a importância de obras que retratam a história dos Descobrimentos ou dos movimentos migratórios para África e para o Brasil pode ser sublinhada. Afinal, a música portuguesa contemporânea é, em grande parte, o resultado de séculos de interacções culturais e trocas artísticas. Compreender essas raízes não só enriquece o repertório dos músicos, como também lhes oferece ferramentas para abordarem questões de identidade e representação no panorama musical actual.
Leitura como antídoto ao imediatismo da era digital
Num mercado que, frequentemente, privilegia métricas rápidas, como número de streams ou visualizações em redes sociais, a leitura surge como um meio de reconexão com a essência da criação artística. O produtor Rick Rubin, por exemplo, é frequentemente citado como defensor de uma abordagem mais introspectiva e menos técnica à música, sublinhando a importância da sensibilidade e da intuição.
Rubin articula a criação como "um estado de percepção", um conceito que desafia a lógica mais fria das estratégias baseadas em algoritmos. Livros como O Ato Criativo: Uma Forma de Ser são frequentemente recomendados aos artistas que procuram resgatar a autenticidade e a profundidade nas suas criações. Em Portugal, onde artistas emergentes enfrentam a pressão de "viralizar" para se destacarem, este tipo de literatura pode ser uma ferramenta essencial para não perderem o foco no que realmente sustenta uma carreira: a autenticidade e a consistência artística.
O futuro da leitura na formação cultural
Um dado alarmante é que, em média, os leitores dedicam apenas 30 minutos diários à leitura, enquanto grande parte da população opta por passar o tempo livre nas redes sociais ou a consumir conteúdos audiovisuais. Em Portugal, este fenómeno não é diferente, e a tendência tem implicações preocupantes para a formação cultural das próximas gerações de artistas.
Jovens entre os 11 e os 13 anos continuam a liderar os índices de leitura, mas este hábito tende a diluir-se na vida adulta. Esta perda de contacto com a leitura afecta directamente o enriquecimento do repertório artístico e a capacidade de inovação dos músicos. Incentivar a leitura desde cedo e mantê-la como parte integrante da formação artística é, portanto, um desafio que exige atenção tanto por parte das escolas como das próprias indústrias culturais.
Em última análise, a leitura não é apenas uma ferramenta de consumo cultural: é uma prática que sustenta a criatividade e proporciona uma visão mais ampla e crítica do mundo. Num momento em que a indústria musical enfrenta mudanças rápidas e desafios constantes, a leitura pode ser a chave para garantir que a arte continua a ser mais do que apenas um produto – mantendo-se como uma expressão profunda da condição humana.
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