Google lança criação de música no Gemini com Lyria 3 e disponibiliza faixas de 30 segundos a 750 milhões de utilizadores
O Google revoluciona a criação musical ao integrar o Lyria 3 no Gemini, permitindo que 750 milhões de utilizadores produzam faixas de 30 segundos com recurso à inteligência artificial. Esta inovação marca um avanço notável na democratização da música digital, tornando o processo mais acessível e intuitivo.
Redação PORTA B
19 de fevereiro de 2026

Google amplia criação musical por IA: Lyria 3 chega ao Gemini e abre novas possibilidades para 750 milhões de utilizadores
O universo da inteligência artificial acaba de dar mais um passo significativo na democratização da criação musical. O Google anunciou a integração do modelo Lyria 3 no Gemini, proporcionando a centenas de milhões de utilizadores a possibilidade de gerar faixas de música de 30 segundos, de forma intuitiva e rápida. A ferramenta, disponível para maiores de 18 anos em diversos idiomas — incluindo português — será lançada gradualmente na aplicação móvel nos próximos dias, tornando a criação musical acessível a uma escala sem precedentes.
Evolução tecnológica: Lyria 3 e as novas funcionalidades
O Lyria 3 representa a terceira geração do modelo de música desenvolvido pelo Google, introduzindo três melhorias fundamentais: geração automática de letras, controlo criativo sobre o estilo, vocais e andamento, e uma construção musical mais complexa. O utilizador pode simplesmente descrever o género, o ambiente ou o tema pretendido — por exemplo, “uma música nostálgica em afrobeat dedicada à mãe” — ou pedir ao sistema que transforme uma fotografia numa trilha sonora. Neste último caso, o Gemini analisa o conteúdo visual, gerando letra e instrumental condizentes com a atmosfera da imagem ou vídeo.
As faixas são limitadas a 30 segundos e recebem uma capa personalizada, criada por outro modelo da empresa, o Nano Banana. O Google sublinha que esta funcionalidade não pretende criar o próximo sucesso de rádio, mas sim oferecer uma via de expressão criativa rápida e partilhável. Não se trata de substituir artistas, mas de proporcionar a qualquer pessoa uma ferramenta para explorar ideias musicais e experimentar com estilos e atmosferas sem barreiras técnicas.
Direitos de autor e identificação de conteúdo gerado por IA
A rápida evolução da geração musical por IA levanta inevitavelmente questões relacionadas com os direitos de autor e a utilização de catálogos existentes no treino destes modelos. O Google afirma ter desenvolvido o Lyria 3 respeitando acordos com parceiros e as regras aplicáveis ao uso de conteúdos. Foram implementados filtros para verificar se os resultados colidem com obras já existentes, procurando salvaguardar os direitos dos criadores.
Adicionalmente, todas as faixas geradas através do Gemini são marcadas com SynthID — uma marca d’água digital imperceptível que permite identificar o áudio como produto de inteligência artificial. O utilizador pode ainda enviar um ficheiro para verificar se este foi criado com ferramentas de IA do Google, recorrendo ao sistema de análise interno para confirmar a origem.
A empresa reforça que, caso o utilizador mencione um artista específico, o modelo interpreta essa referência de forma ampla, inspirando-se no estilo ou clima, mas evitando a imitação directa. Este cuidado pretende minimizar o risco de infrações e proteger a identidade artística dos músicos, numa altura em que a fronteira entre criação humana e artificial se torna cada vez mais ténue.
Impacto para a indústria musical portuguesa e europeia
A integração da criação musical por IA no Gemini representa uma mudança de paradigma, tanto no acesso como no processo criativo. Ao disponibilizar a ferramenta a 750 milhões de utilizadores, o Google aproxima a composição musical do quotidiano, transformando-a num recurso ao alcance de qualquer pessoa com um smartphone. O foco nas faixas de 30 segundos evidencia o alinhamento com as tendências actuais das redes sociais, especialmente nos formatos de vídeos curtos, como os reels ou shorts do YouTube.
Para a indústria musical portuguesa, este avanço traz desafios e oportunidades. Por um lado, pode democratizar o acesso à composição, permitindo que criadores emergentes experimentem ideias sem grandes investimentos ou competências técnicas. Por outro, levanta questões sobre a originalidade, a remuneração dos autores e a sustentabilidade do mercado musical. A facilidade de gerar músicas em segundos pode saturar as plataformas digitais com conteúdos efémeros, dificultando a distinção entre obras genuínas e produções automáticas.
Na Europa, onde a protecção dos direitos de autor é uma prioridade legislativa, a introdução massiva de músicas geradas por IA exige uma reflexão profunda sobre o enquadramento legal. Os mecanismos de identificação, como o SynthID, são um passo importante, mas não resolvem questões relativas ao uso de catálogos protegidos para treino de modelos. O debate sobre autoria e remuneração deve ser intensificado, envolvendo não só os legisladores, mas também as associações de músicos, editoras e plataformas de distribuição.
Uma nova era para a criatividade ou ameaça à originalidade?
A chegada do Lyria 3 ao Gemini marca uma transição relevante: a inteligência artificial já não é apenas uma ferramenta para profissionais ou técnicos, mas um recurso ao serviço da criatividade quotidiana. Esta democratização pode gerar novas formas de expressão, inspirar colaborações inesperadas e alterar o modo como a música é criada, partilhada e consumida.
No entanto, o risco de banalização, a erosão do valor da autoria e a proliferação de conteúdos superficiais são preocupações legítimas. Cabe à indústria musical portuguesa e europeia encontrar formas de proteger os criadores, valorizar o talento e garantir que a inovação tecnológica não compromete a diversidade e autenticidade artística.
Em suma, o Lyria 3 representa uma oportunidade para repensar o futuro da música, num equilíbrio delicado entre criatividade, tecnologia e ética. Portugal, com a sua tradição musical e potencial criativo, tem aqui um desafio que poderá definir o modo como as próximas gerações de músicos e ouvintes se relacionam com a arte sonora.
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