Relatório da Luminate destaca a Ásia como força central da indústria musical global
Os mercados asiáticos estão a emergir como protagonistas na indústria musical global, redefinindo tendências através de um crescimento acelerado em streaming e estratégias inovadoras de monetização focadas nos superfãs.
Redação PORTA B
4 de março de 2026

Relatório da Luminate destaca Ásia como epicentro emergente da indústria musical global
Os mercados asiáticos estão a transformar-se numa força motriz no panorama da música global, impulsionados por um crescimento acima da média mundial em streaming, pela relevância contínua da música em formato físico e pelo avanço em modelos de monetização centrados nos superfãs. Segundo o relatório da Luminate, estes mercados não só exportam artistas, mas também formatos de negócio e estratégias culturais que começam a moldar o futuro da indústria.
Crescimento exponencial no streaming
Países como Índia, Indonésia e Filipinas destacaram-se em 2025 como líderes no crescimento anual de streams premium sob demanda. A Índia registou um aumento impressionante de 38,9% em relação ao ano anterior, enquanto a Indonésia cresceu 19,7% e as Filipinas 17,5%. Para colocar em perspectiva, a média global de crescimento foi de apenas 7%, o que sublinha o dinamismo e potencial destes mercados.
Em números absolutos, a Índia tornou-se o segundo maior mercado do mundo em consumo de streaming sob demanda, com 489,9 mil milhões de streams em 2025 – ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Contudo, é importante notar que 84% deste volume foi sustentado por modelos baseados em anúncios, enquanto apenas 16% resultaram de assinaturas pagas. Este dado revela um desafio significativo: embora o consumo seja elevado, a capacidade de gerar receitas premium ainda está aquém dos mercados desenvolvidos.
Além disso, a receita média por utilizador (ARPU) na Índia permanece consideravelmente inferior à dos mercados ocidentais. Enquanto países como os Estados Unidos e o Reino Unido registam valores superiores a 30 dólares por utilizador, a Índia apresenta uma média de apenas 3 dólares. Este contraste evidencia a necessidade de adaptar estratégias comerciais ao perfil económico e cultural específico destes mercados.
Impacto da música ao vivo e desafios de infraestrutura
O setor da música ao vivo também tem ganho importância na região. Na Índia, as principais empresas de entretenimento reportaram um crescimento significativo da receita impulsionado por concertos e digressões. Este segmento continua a recuperar após os anos de restrições pandémicas, com 2026 projetado como um ano de expansão robusta, alavancado por lançamentos de novos álbuns e circuitos internacionais.
No Japão, o envolvimento da geração Z com eventos musicais ao vivo tem aumentado, com 25,7% dos jovens a afirmarem ter participado em espetáculos nos últimos 12 meses, em 2025. No entanto, o país enfrenta desafios estruturais relacionados com a escassez de venues de grande escala, devido a reformas e outras limitações. Este fator pode condicionar o crescimento do setor ao vivo na região.
Mudanças culturais e tecnológicas
Outro ponto relevante do relatório é a transformação cultural em curso. Historicamente, o consumo musical na Índia estava fortemente ligado a bandas sonoras de filmes, que representavam cerca de 80% do total em 2020. Em 2024, essa participação caiu para 63%, refletindo o crescimento de artistas independentes e cenas regionais. Este fenómeno demonstra uma diversificação do mercado e uma maior valorização da música fora do circuito cinematográfico tradicional.
A tecnologia tem sido igualmente central na evolução da indústria musical na Ásia. Em 2025, cerca de 56,9% das músicas independentes lançadas na China foram criadas com base em inteligência artificial, o que aponta para um futuro onde a inovação tecnológica desempenhará um papel crucial na criação artística. No setor da música ao vivo, o crescimento na China foi de 46,6% em 2024, atingindo um volume de mercado de 38,7 mil milhões de yuans (aproximadamente 5,6 mil milhões de dólares).
Análise crítica: impacto na indústria musical portuguesa e europeia
O crescimento acelerado da indústria musical na Ásia levanta questões importantes para o mercado português e europeu. Por um lado, os formatos de negócio e as estratégias culturais provenientes destes mercados podem apresentar oportunidades de inovação. Modelos que privilegiam superfãs, experiências digitais e interatividade financeira, como os observados na China, podem ser adaptados à realidade europeia, oferecendo novas formas de monetização para artistas e promotores.
Por outro lado, os desafios enfrentados por mercados como o indiano – nomeadamente a baixa receita média por utilizador e a dependência de modelos baseados em publicidade – servem como aviso para a implementação de estratégias equilibradas na Europa. A transição para modelos mais sustentáveis, como assinaturas pagas, será crucial para garantir o crescimento a longo prazo.
Outro aspeto relevante é o impacto cultural. A diversificação do consumo musical na Índia, com o aumento de artistas independentes e cenas regionais, é um exemplo de como as tradições locais podem coexistir com tendências globais. Em Portugal, onde a música tradicional e regional desempenha um papel importante, esta abordagem pode ser inspiradora para potenciar a exportação de géneros como o fado, o cante alentejano ou a música popular portuguesa.
Conclusão
O relatório da Luminate sublinha que a Ásia não é apenas um consumidor crescente de música, mas também um influenciador global no setor. Combinando tecnologia, cultura local e estratégias comerciais inovadoras, os mercados asiáticos estão a redefinir os paradigmas da indústria musical. Para Portugal e para a Europa, este é um momento de reflexão e adaptação. Mais do que competir diretamente, a chave estará em aprender e incorporar as lições vindas do Oriente, ajustando-as às realidades locais e promovendo uma indústria musical que seja ao mesmo tempo sustentável e culturalmente rica.
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