MIDiA aponta aumento de 9,4% e afirma que a economia do fã se tornou um motor adicional da música gravada em 2025
A economia do fã emergiu como um pilar essencial para a música gravada em 2025, impulsionando novas fontes de receita e redefinindo as estratégias da indústria. Enquanto o streaming abranda, formatos físicos e direitos expandidos ganham terreno.
Redação PORTA B
17 de março de 2026

A economia do fã como motor de crescimento da música gravada em 2025
De acordo com um relatório recente da MIDiA, a indústria musical registou um crescimento de 9,4% em 2025, mas o dado mais significativo não reside apenas na expansão do mercado. O que realmente chamou a atenção foi a transformação nas dinâmicas que impulsionaram esse crescimento. Embora o streaming continue a ser a principal fonte de receita, pela primeira vez na era do streaming, esta área registou um crescimento mais lento do que o mercado global. Este fenómeno deveu-se a um aumento de peso noutras frentes, como os chamados direitos expandidos e o ressurgimento da música em formatos físicos.
Direitos expandidos: a nova aposta das gravadoras
Quando se fala em direitos expandidos, refere-se à participação das editoras discográficas em áreas para além da simples venda ou monetização de gravações. Este conceito abrange receitas provenientes de merchandising, concertos ao vivo, parcerias com marcas e outras actividades relacionadas com o universo do artista. Em 2025, esta categoria registou um crescimento impressionante de 21,5%, destacando-se como um dos motores principais da diversificação do mercado musical.
Esta transformação reflete-se no que a MIDiA chamou de "ascensão da economia do fã". Este novo paradigma não implica que o streaming esteja a ser deixado para trás, mas antes que as editoras estão a diversificar as suas fontes de receita para reduzir a dependência de um único segmento. O modelo tradicional, centrado exclusivamente no consumo digital, está a ser complementado por um ecossistema mais amplo que coloca o fã no centro de outras experiências musicais.
Streaming vs. diversificação
Apesar de o streaming continuar a ser a maior fonte de receitas e a principal responsável pela entrada de dinheiro novo no mercado, os direitos expandidos tiveram um impacto crucial no crescimento global. Sem esta nova categoria, o crescimento da indústria fonográfica teria sido de apenas 7,7%, em vez dos 9,4% registados. Este dado sublinha que o segmento dos direitos expandidos já não é um simples "bónus", mas sim uma parte integral da estratégia das editoras.
Ao mesmo tempo, o relatório revelou um dado curioso: os artistas independentes, que se lançam sem o apoio de grandes editoras, perderam participação no mercado de streaming. Isto deve-se, em parte, à introdução de requisitos mínimos para pagamentos, que prejudicaram estes criadores apesar do aumento no número de streams. Por outro lado, editoras independentes têm conseguido ganhar terreno no que toca aos direitos expandidos, embora percam competitividade quando este segmento é excluído da equação.
O consumo híbrido e a identidade musical
O crescimento da música física e dos direitos expandidos sugere que o consumo musical está a tornar-se mais híbrido. Os fãs já não se contentam apenas em ouvir música; querem colecionar, pertencer a comunidades, comprar itens exclusivos e usar a música como uma expressão visível da sua identidade. Para as editoras, esta tendência representa uma oportunidade para explorar novas fontes de receita, especialmente numa altura em que o crescimento do mercado requer mais esforço do que outrora.
Esta mudança de paradigma não é apenas uma questão de diversificação económica, mas também uma estratégia para mitigar riscos. Num cenário de rápidas mudanças tecnológicas, como o impacto da inteligência artificial e os debates em torno da monetização, depender de uma única fonte de receita torna-se uma posição vulnerável. A diversificação, portanto, não é apenas uma vantagem financeira, mas uma necessidade estratégica.
Impacto na indústria musical portuguesa e europeia
No contexto português e europeu, estas tendências globais têm implicações profundas. A diversificação das receitas e o foco na economia do fã podem representar uma oportunidade significativa para artistas e editoras independentes na Europa, que tradicionalmente enfrentam desafios ao competir com os gigantes norte-americanos.
A revitalização da música física, por exemplo, encaixa-se bem no mercado europeu, onde o vinil tem registado um renascimento significativo nos últimos anos. Portugal, com a sua rica herança musical e forte ligação emocional à música, pode beneficiar particularmente desta tendência. Artistas locais podem explorar novos modelos de receitas, como edições limitadas de vinis, merchandising exclusivo e experiências personalizadas para os fãs, criando uma conexão mais íntima e direta com o público.
Por outro lado, o desafio para os artistas independentes portugueses será ainda maior no cenário do streaming, especialmente face às novas exigências para monetização. A queda na participação de mercado para artistas não associados a grandes editoras sublinha a necessidade de políticas mais equitativas e de plataformas que promovam a diversidade cultural, evitando que apenas os grandes players tenham acesso às principais fontes de receita.
Reflexão final
O relatório da MIDiA indica que a indústria musical está a entrar numa nova fase, caracterizada pela diversificação e pela centralidade do fã enquanto motor económico. Para Portugal e para a Europa, esta mudança representa tanto desafios como oportunidades. Por um lado, a necessidade de inovação e adaptação a novas realidades económicas; por outro, a oportunidade de explorar modelos de negócio que valorizem a diversidade cultural e o património musical local.
A economia do fã não é apenas uma tendência passageira; é um reflexo de como a música continua a evoluir como uma força cultural e económica. A pergunta que se coloca agora é: estarão os artistas e as editoras portuguesas prontos para liderar esta nova era ou correm o risco de ficar para trás numa indústria em constante mudança?
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