Mulheres perdem protagonismo na música popular, revela estudo da USC com dados de 1.400 canções
Apesar de a música popular ser um símbolo de criatividade e diversidade, um estudo recente alerta para o estagnação do progresso na igualdade de género, com as mulheres a perderem protagonismo nas tabelas de sucesso – uma tendência preocupante para Portugal e Europa.
Redação PORTA B
19 de março de 2026

Mulheres perdem espaço na música popular: uma análise do cenário global e impacto em Portugal e Europa
A indústria musical continua a ser vista como um espaço de criação e inovação, mas os números mais recentes mostram que as desigualdades de género permanecem profundas, especialmente para as mulheres. Apesar de avanços pontuais ao longo da última década, um estudo recente que analisou 1.400 canções populares revela que o progresso em direcção à igualdade de género está a estagnar – uma realidade que não pode ser ignorada, principalmente se pensarmos no impacto potencial para a Europa e, mais concretamente, para Portugal.
Uma presença feminina reduzida nas tabelas de sucesso
Os dados relativos a 2025 mostram uma ligeira diminuição na presença de mulheres enquanto artistas creditadas nas músicas mais populares. Nos Estados Unidos, apenas 36,1% dos créditos artísticos nas tabelas de maior sucesso foram atribuídos a mulheres, uma queda em relação aos 37,7% registados em 2024. Embora este valor seja superior aos 22,7% observados em 2012, o estudo sublinha que o avanço observado nos últimos anos perdeu ímpeto desde 2023.
A situação é ainda mais preocupante entre as artistas a solo, cuja representatividade desceu para 34,5% em 2025. Este dado sublinha as dificuldades persistentes enfrentadas pelas mulheres para se afirmarem como protagonistas na música popular, em especial nos mercados de grande dimensão.
Bastidores da indústria: um cenário ainda mais sombrio
Se a presença feminina no palco já suscita preocupações, a situação nos bastidores é alarmante. Em 2025, as mulheres representaram apenas 14,5% dos créditos de composição, uma descida dos 18,9% registados em 2024. Para se ter uma ideia mais clara da magnitude do problema, metade das canções analisadas na tabela Hot 100 do final de 2025 não tinha sequer uma mulher creditada como compositora. No total, ao longo dos 14 anos analisados, as mulheres foram responsáveis por apenas 13,9% dos créditos de composição.
A produção musical, por sua vez, apresenta os números mais desoladores. Apenas 4,4% dos produtores creditados em 2025 eram mulheres, uma redução em relação aos 5,9% do ano anterior. Ao longo da última década, a proporção foi de 27 homens para cada mulher produtora. O estudo revela ainda que mais de 93% das músicas analisadas durante 11 anos não contaram com qualquer mulher na equipa de produção.
Estes dados não só expõem a desigualdade de género como destacam o impacto directo nas estruturas de poder da indústria. As áreas de composição e produção têm um peso decisivo na estética, narrativa e identidade das músicas, além de serem as que distribuem maior prestígio e rendimento a longo prazo.
Diversidade étnica e género: um duplo desafio
A situação agrava-se ainda mais quando se analisam os dados relativos às mulheres racializadas. Em 2025, apenas 29 compositoras não-brancas foram creditadas, um número praticamente inalterado face a 2024. Na produção, a invisibilidade é quase total: apenas quatro mulheres racializadas receberam crédito como produtoras, e apenas uma delas não desempenhou também o papel de intérprete. Este panorama traduz-se numa impressionante desproporção, com 94,5 homens para cada mulher não-branca na produção musical.
Embora se tenha registado um aumento nas indicações de mulheres racializadas para prémios em 2026, atingindo uma percentagem de 61,1%, a realidade é que o reconhecimento ainda é escasso. Apenas 13,2% dos vencedores de prémios nas categorias analisadas durante 14 anos foram mulheres, com apenas 16,7% dos vencedores em 2026 a serem do sexo feminino, das quais apenas duas eram racializadas.
O impacto no contexto português e europeu
Embora o estudo se foque no mercado norte-americano, as conclusões têm implicações que transcendem fronteiras. Em Portugal, a indústria musical enfrenta desafios semelhantes no que diz respeito à representatividade feminina, tanto em palco como nos bastidores. A nível europeu, apesar de existirem iniciativas para promover a igualdade de género na cultura e nas artes, os números continuam a evidenciar uma sub-representação das mulheres, especialmente em papéis criativos e de liderança.
A falta de mulheres em cargos de poder e nas áreas de composição e produção também tem efeito directo na definição das narrativas musicais que chegam ao público. Em Portugal, onde o mercado é, por si só, mais restrito, esta desigualdade pode ter impactos ainda mais pronunciados, limitando a diversidade de vozes e perspectivas na música popular.
Além disso, a ausência de mulheres, particularmente racializadas, em posições de destaque e poder na indústria musical europeia é um sinal claro de que ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar uma verdadeira igualdade e diversidade.
Reflexão: o que está em causa?
Os dados apresentados não só revelam uma estagnação preocupante como desmentem a ideia de que o mercado se está a corrigir automaticamente. Se a diversidade na "montra" – ou seja, na visibilidade pública – pode dar uma falsa impressão de progresso, os bastidores continuam dominados por uma lógica estrutural que perpetua as desigualdades.
Em Portugal e na Europa, é essencial que os agentes da indústria musical – incluindo editoras, produtores, festivais e organismos culturais – assumam um papel activo na promoção de políticas que incentivem a igualdade de género e a inclusão. Medidas como quotas para mulheres em cargos de produção, programas de mentoria e maior apoio institucional para artistas de minorias raciais podem ser essenciais para quebrar o ciclo de exclusão.
A luta pela igualdade na música não é apenas uma questão de justiça social; é também uma forma de enriquecer o panorama cultural e de garantir que todas as vozes, histórias e perspectivas têm espaço para se expressar. A indústria musical portuguesa, tal como a europeia, precisa de responder a este desafio com urgência e determinação.
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