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Música em Portugal: 10 dados do estudo Globo e Quaest revelam os hábitos, contradições e tendências do consumo no país

Os hábitos musicais em Portugal estão a mudar, mas será que as tendências brasileiras podem oferecer pistas sobre o futuro do consumo cultural no país? Um estudo recente lança luz sobre preferências e contradições que atravessam fronteiras.

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Redação PORTA B

19 de março de 2026

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Música em Portugal: 10 dados do estudo Globo e Quaest revelam os hábitos, contradições e tendências do consumo no país
## O consumo musical e as suas nuances: o caso brasileiro e as reflexões para a Europa

Uma das mais abrangentes investigações recentes sobre o consumo musical no Brasil trouxe à tona dados que ajudam a compreender as dinâmicas culturais e comerciais de um dos maiores mercados musicais do mundo. A pesquisa, que envolveu milhares de participantes de todas as regiões do país, analisou os hábitos de escuta, preferências e percepções culturais, traçando um retrato complexo e, por vezes, contraditório da relação dos brasileiros com a música. 

Os resultados são particularmente interessantes não só para compreender o mercado brasileiro, mas também para traçar paralelismos e contrastes com a realidade europeia, incluindo a portuguesa. O que podemos aprender com os dados brasileiros e como isso pode impactar a indústria musical no nosso contexto?

## A hegemonia de géneros populares e a sua ligação à identidade cultural

O sertanejo, género musical predominante no Brasil, lidera com 26% das preferências dos inquiridos, muito à frente de outros estilos como o gospel (16%) e géneros nordestinos como o forró, piseiro e arrocha (10%). Este domínio não é apenas numérico; o sertanejo é também o género que mais brasileiros identificam como representativo da sua identidade cultural (25%).

Este alinhamento entre consumo e identidade é um fenómeno raro. Em muitos mercados, os géneros mais consumidos raramente coincidem com aqueles que são vistos como símbolos culturais. Portugal, por exemplo, apresenta uma realidade distinta: o fado é indiscutivelmente um ícone cultural, mas não é, de longe, o género mais consumido no dia-a-dia. Este desalinhamento cria desafios para a indústria, mas também oportunidades para reforçar narrativas que liguem identidade e o consumo contemporâneo.

## Contradições entre símbolos culturais e hábitos de consumo

Outro dado relevante da pesquisa brasileira é a posição do samba e do pagode. Estes géneros são considerados ícones culturais – 23% dos inquiridos mencionaram-nos como representativos do Brasil –, mas ocupam apenas o quarto lugar nas preferências reais (9%). Este desfasamento indica que, enquanto símbolos culturais, continuam altamente valorizados, mas perderam força no consumo cotidiano.

Este fenómeno não é exclusivo do Brasil. Na Europa, é comum que géneros tradicionalmente associados à identidade cultural de um país (como o flamenco em Espanha ou a música clássica na Europa Central) ocupem um papel mais simbólico do que comercial. O desafio para a indústria musical, tanto no Brasil como aqui, é encontrar formas de reacender o interesse por esses géneros junto das novas gerações, seja através de inovações na produção musical, seja pela sua incorporação em campanhas de marketing e branding.

## A força do gospel e a fidelidade de públicos nichados

Com 16% das preferências, o gospel é o segundo género mais consumido no Brasil. Este número reflete o poder de um público altamente engajado e fiel, o que resulta em hábitos de consumo consistentes e previsíveis. No entanto, apenas 5% dos inquiridos consideram o género representativo da cultura brasileira, o que demonstra um desfasamento entre a sua popularidade e o seu lugar no imaginário coletivo.

Na Europa, o fenómeno do gospel não tem a mesma escala, mas a ideia de públicos nichados com elevado grau de fidelidade é algo que a indústria musical europeia tem vindo a explorar, especialmente no contexto de géneros alternativos e independentes. Criar comunidades de fãs sólidas e manter uma relação próxima com essas audiências pode ser uma estratégia eficaz para artistas e produtores.

## O papel das regiões na definição de tendências

No Brasil, os estilos musicais associados ao Nordeste, como o forró e o piseiro, destacam-se por conseguirem um equilíbrio entre consumo (10%) e representatividade cultural (12%). Este dado sublinha a relevância do Nordeste como um polo criativo que frequentemente exporta tendências para outras regiões.

Em Portugal e na Europa, a descentralização da produção musical poderia beneficiar de uma maior exploração das identidades regionais. Tal como o Brasil encontra inovação nas expressões culturais do Nordeste, Portugal poderia, por exemplo, intensificar a promoção de géneros e sonoridades regionais, como as tradições musicais do Alentejo ou as influências africanas nos ritmos urbanos de Lisboa e Porto.

## A erosão da MPB e o paralelo com a música de autor europeia

A Música Popular Brasileira (MPB), durante décadas considerada o principal emblema da música do país, aparece agora com apenas 8% das preferências. Este dado aponta para uma mudança geracional, em que os géneros populares contemporâneos têm maior penetração junto do público jovem.

Este fenómeno encontra paralelismos na Europa, onde a música de autor e as tradições canónicas enfrentam desafios semelhantes no mercado de consumo de massa. Contudo, tal como acontece com a MPB no Brasil, estes géneros mantêm um importante papel como repositórios de memória cultural e como fontes de inspiração para novos criadores.

## Reflexões para a indústria musical portuguesa e europeia

O estudo brasileiro é um exemplo claro de como o consumo musical está intrinsecamente ligado a fatores culturais, regionais e geracionais. Para a Europa e, em particular, para Portugal, alguns ensinamentos são evidentes. Há uma necessidade urgente de equilibrar o papel simbólico de géneros tradicionais com estratégias que os renovem e os tornem atrativos para audiências mais jovens. Além disso, a aposta em comunidades regionais e de nicho pode ser uma via para criar novas dinâmicas de consumo.

Por fim, a pesquisa sublinha como a música continua a ser um dos elementos mais unificadores de uma identidade cultural, mesmo em contextos de profunda polarização social. Para a indústria musical, compreender e respeitar essas dinâmicas sociais e culturais será sempre essencial para o seu crescimento sustentável.

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