INTERNACIONAL

Heineken revela que o algoritmo se tornou a principal fonte de descoberta musical para 60,9% dos brasileiros

Um estudo recente revela que 60,9% dos brasileiros descobrem música através de algoritmos, destacando a conveniência destas plataformas, mas também levantando dúvidas sobre a autenticidade das preferências musicais. Quase metade dos inquiridos admite dificuldade em distinguir entre gostos reais e sugestões automatizadas.

R

Redação PORTA B

6 de maio de 2026

5 min de leitura|30 leituras
Heineken revela que o algoritmo se tornou a principal fonte de descoberta musical para 60,9% dos brasileiros

Algoritmos dominam a descoberta musical, mas levantam questões sobre autenticidade e diversidade

Um recente estudo realizado no Brasil revela que os algoritmos de plataformas digitais se tornaram a principal fonte de descoberta musical para 60,9% dos consumidores. Esta investigação, que recolheu opiniões de mais de mil pessoas em diversas regiões brasileiras, evidencia a crescente conveniência dos sistemas automáticos na filtragem do vasto universo musical disponível online. Contudo, também aponta para um efeito menos positivo desta comodidade: quase metade dos entrevistados, 49,2%, admite já não conseguir diferenciar o que gosta genuinamente do que lhe é sugerido pelas plataformas.

Esta realidade traduz um fenómeno que muitos utilizadores das plataformas digitais já experienciam: a recomendação automática resolve o problema do excesso de oferta, mas simultaneamente dilui a sensação de autonomia na escolha. O algoritmo aprende as preferências do utilizador e tende a apresentar variações muito semelhantes, criando uma espécie de “loop” musical que limita a diversidade e reduz o contacto com propostas menos óbvias.

O risco da homogeneização dos gostos musicais

Para um em cada quatro participantes no estudo, os seus gostos estão a tornar-se mais genéricos. Esta percepção está alinhada com a ideia de que, quanto mais o sistema aprende sobre o que se ouve, mais restringe as sugestões a variações no mesmo estilo ou género. Tal fenómeno pode ser eficiente para manter o utilizador entretido, mas gera uma sensação de estagnação, como se se estivesse sempre a percorrer o mesmo corredor musical.

De acordo com o relatório, 37,7% dos inquiridos sentem que vivem num “eterno looping”, onde nada soa verdadeiramente novo, apenas uma repetição da mesma experiência. Na música, esta rotina de sugestões semelhantes pode ser confortável, mas empobrece a descoberta e a construção do gosto pessoal. A promessa de uma descoberta musical infinita acaba por se transformar numa experiência previsível e limitada.

A importância dos concertos e festivais como espaços de descoberta e pertença

O estudo também revela que a experiência ao vivo surge como um importante contraponto à mediação digital. Para 46,5% dos entrevistados, os concertos proporcionam uma energia e uma conexão coletiva que os algoritmos nunca poderão replicar. Além disso, 24,6% consideram que os espetáculos são uma forma genuína de contacto com o artista e uma oportunidade para descobrir novas músicas.

Este dado sublinha o papel dos concertos e festivais para além da simples venda de bilhetes. Estes eventos tornam-se locais privilegiados de descoberta musical, pertença comunitária e curadoria. Em vez de receber uma sugestão individualizada e automatizada, o público vive uma experiência partilhada, observa as reações de outros, escuta repertórios fora da sua zona de conforto e cria memórias afetivas em torno de artistas e canções.

Curiosamente, 53,7% dos participantes referem que, nos festivais, o algoritmo por vezes dificulta a descoberta fortuita, apesar da conveniência das plataformas digitais. Este dado explica porque eventos com curadorias menos convencionais ou mais experimentais podem ganhar maior relevância no contexto atual. O valor não reside apenas em entregar ao público o que ele já conhece, mas em proporcionar a experiência de encontrar algo inesperado, que o utilizador não teria a iniciativa de procurar sozinho.

Crítica à automatização da descoberta musical e o impacto na identidade cultural

A automatização excessiva da recomendação musical levanta questões profundas sobre o papel da música na construção da identidade e na relação social. Quando a descoberta é mecanizada, perde-se parte do processo de exploração e de abertura ao novo, elementos essenciais para o desenvolvimento do gosto e da identidade cultural.

No contexto europeu e português, esta tendência poderá ter implicações significativas para a diversidade musical e para a sustentabilidade da indústria cultural. Se os algoritmos privilegiarem sempre os mesmos géneros ou artistas mais populares, corre-se o risco de marginalizar expressões musicais alternativas e emergentes. Isto pode reduzir a pluralidade cultural e empobrecer a oferta musical disponível, dificultando também a carreira de novos talentos.

Para o sector musical nacional e europeu, a reflexão sobre o equilíbrio entre personalização e diversidade torna-se urgente. É necessário incentivar modelos que promovam a descoberta ativa e o contacto com múltiplos universos musicais, para além da mera repetição do que é já conhecido e consumido.

A recomendação humana mantém valor social e cultural

Apesar do domínio crescente dos algoritmos, o estudo destaca que a recomendação feita por pessoas continua a ter um valor singular. Cerca de 22,9% dos inquiridos valorizam o facto de a indicação humana criar um tema comum para discussão e partilha. Outros 21,5% apreciam a oportunidade de se aproximar de comunidades com interesses musicais similares, enquanto 18,9% relatam que estas interações fortalecem amizades.

Este aspeto é fundamental para compreender a música não apenas como produto cultural, mas como linguagem social. Partilhar uma canção, comentar um concerto ou descobrir um artista através de amigos ou comunidades reforça laços e cria experiências partilhadas que os algoritmos não conseguem replicar totalmente. As plataformas oferecem eficiência e comodidade, mas a dimensão humana da recomendação é insubstituível no fortalecimento da identidade coletiva e na diversidade cultural.

Conclusão

O estudo brasileiro, apesar do seu contexto geográfico específico, traz reflexões importantes para a indústria musical portuguesa e europeia. A predominância dos algoritmos na descoberta musical, embora facilite o acesso a vastos catálogos, pode conduzir a uma homogeneização dos gostos e a uma diminuição da diversidade cultural. Em contrapartida, a valorização dos eventos ao vivo e da recomendação humana aponta para caminhos alternativos que reforçam o papel da música como experiência social e cultural rica e multifacetada.

Para a indústria musical, o desafio reside em encontrar um equilíbrio entre tecnologia e humanidade, entre conveniência e surpresa, entre consumo passivo e exploração ativa. A música, enquanto fenómeno cultural, precisa continuar a fomentar a descoberta, a identidade e a comunidade — valores que não podem ser totalmente automatizados.

PORTA B — Perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.

Heineken revela que o algoritmo se tornou a principal fonte de descoberta musical para 60,9% dos brasileiros | PORTA B