RIAA revela receita de 1 mil milhão de dólares e 10.º ano de crescimento da música latina nos EUA, com streaming a dominar 98% da receita
A música latina nos EUA celebra o seu décimo ano consecutivo de crescimento, alcançando uma receita histórica de 1,009 mil milhões de dólares em 2025, impulsionada por um domínio quase total do streaming, que representa 98% dos ganhos.
Redação PORTA B
27 de abril de 2026

O crescimento da música latina nos Estados Unidos e o impacto do streaming
Recentemente, a indústria fonográfica norte-americana revelou que a receita proveniente da música latina atingiu a marca histórica de 1,009 mil milhões de dólares em 2025, representando um crescimento de 4,2% face ao ano anterior. Este valor traduz-se no décimo ano consecutivo de subida para este segmento, que cresce a um ritmo superior ao do mercado fonográfico geral dos Estados Unidos, que registou uma subida de 3,1%. Estes números não apenas refletem o sucesso económico da música latina, mas também sublinham transformações estruturais profundas na forma como a música é consumida e distribuída globalmente.
Streaming domina quase na totalidade a receita da música latina
Um dos dados mais reveladores do relatório é que 98,2% da receita da música latina nos EUA provém do streaming, um peso ainda maior do que o observado no mercado americano global, onde o streaming representa cerca de 82%. O streaming gratuito, suportado por publicidade, sofreu uma queda de 2,4%, indicando uma mudança clara para um público mais envolvido e disposto a pagar para aceder a conteúdos musicais. Esta tendência evidencia uma maior fidelização dos consumidores e uma valorização crescente do conteúdo musical, factores essenciais para a sustentabilidade da indústria.
Enquanto isso, os formatos tradicionais continuam a perder relevância. A música em suporte físico representa apenas 0,8% da receita, e apesar de o download digital ter crescido 12,7%, mantém-se marginal no total das receitas. Este cenário confirma que o streaming é hoje o pilar central da indústria, revolucionando a forma como a música é distribuída e consumida.
A música latina como força estruturante no mercado americano
Embora os 8,8% da receita total representados pela música latina possam parecer modestos à primeira vista, a evolução histórica é impressionante. Em 2016, este segmento gerava apenas cerca de 149 milhões de dólares, tendo ultrapassado a barreira do mil milhões em menos de uma década. Este crescimento notável demonstra que a música latina deixou de ser um mero nicho para assumir um papel fundamental no mercado fonográfico norte-americano.
Importa destacar que este avanço não se limita a artistas que cantam em inglês, o que demonstra uma mudança significativa no comportamento dos públicos, que estão cada vez mais abertos a conteúdos musicais em línguas e estilos diversos.
Diversidade como chave do sucesso
Um equívoco comum é encarar a “música latina” como um género musical homogéneo. Na realidade, este segmento é um vasto guarda-chuva que inclui estilos tão distintos como o reggaeton e trap latino de Porto Rico, o regional mexicano, o pop latino, a música urbana colombiana, o funk brasileiro, a bachata dominicana ou a música andina, entre muitos outros. Esta diversidade é fundamental para o crescimento e resiliência do mercado latino.
O reconhecimento de diferentes géneros e cenas locais, impulsionado por eventos como o Latin Grammy, contribui para legitimar esta pluralidade e criar narrativas de mercado que ultrapassam a hegemonia de um único estilo. Isto permite que, mesmo que alguns géneros estejam mais em voga noutros momentos, exista sempre uma base sólida que sustenta o consumo e mantém o segmento em crescimento constante.
Implicações para a indústria musical portuguesa e europeia
O fenómeno da música latina nos EUA oferece lições e desafios importantes para a indústria musical portuguesa e europeia. Em primeiro lugar, evidencia-se o papel incontornável do streaming como motor do crescimento, confirmando que a adaptação a este modelo é crucial para qualquer mercado que queira prosperar. Portugal e Europa poderiam beneficiar de estratégias concertadas para potenciar o streaming, não só como meio de consumo, mas também como plataforma de internacionalização dos seus artistas.
Além disso, a diversidade estilística que caracteriza o segmento latino é um exemplo a seguir. O mercado europeu, com a sua pluralidade cultural e linguística, tem um enorme potencial para promover um ecossistema musical igualmente diverso e dinâmico, capaz de resistir a modas passageiras e de criar pontes entre diferentes públicos.
A crescente valorização de músicas em línguas nativas e a abertura para géneros menos anglicizados sugerem que o mercado europeu pode explorar as suas próprias raízes culturais para conquistar audiências globais, evitando a tentação de uniformização que tantas vezes limita a visibilidade de artistas locais.
O futuro da indústria musical: globalização e digitalização
A consolidação da música latina no mercado norte-americano não é um fenómeno isolado, mas parte de uma transformação global da indústria musical, em que o digital e a globalização são protagonistas. As plataformas de streaming permitem lançamentos simultâneos em múltiplos países, enquanto as redes sociais facilitam a circulação rápida e transversal de sucessos entre culturas distintas.
Esta dinâmica cria um efeito de retroalimentação: o sucesso gera mais investimento, visibilidade e oportunidades, que por sua vez alimentam novos ciclos de crescimento. Para a indústria musical europeia, esta realidade exige uma visão estratégica que aposte na internacionalização dos artistas, num mercado onde as fronteiras geográficas e linguísticas estão cada vez menos definidas.
Conclusão
A receita histórica de mil milhões de dólares da música latina nos Estados Unidos simboliza mais do que um marco financeiro: representa uma reorganização do mercado fonográfico, onde o digital, a diversidade e a globalização são forças motrizes. Para a indústria musical portuguesa e europeia, este fenómeno é um convite a repensar modelos, a valorizar a pluralidade cultural e a apostar numa presença mais forte e integrada no panorama internacional, aproveitando as oportunidades abertas pela transformação digital.
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