Sony desenvolve tecnologia para rastrear músicas originais utilizadas por IA e aposta num novo modelo de receita no setor
Com esta tecnologia, a Sony não só identifica as músicas originais usadas pela IA, como também quantifica a influência de cada obra, permitindo uma distribuição de receitas mais justa e transparente entre os titulares de direitos. Esta abordagem pode transformar o modo como artistas e criadores são remunerados no universo digital.
Redação PORTA B
19 de fevereiro de 2026

Sony aposta em tecnologia para rastrear músicas originais usadas por IA e propõe novo modelo de receitas
A Sony está a desenvolver uma tecnologia inovadora capaz de rastrear músicas originais utilizadas por sistemas de inteligência artificial (IA), abrindo caminho para um novo paradigma de distribuição de receitas no sector musical. Quando não existe colaboração directa entre artistas ou titulares de direitos e criadores de IA, o processo adopta uma abordagem diferente: a solução tecnológica compara a música gerada por IA com extensos catálogos existentes, identificando quais obras serviram de base e quantificando a participação de cada uma. Por exemplo, pode determinar que uma faixa contém “30% de uma música dos Beatles e 10% de Queen”.
Esta análise vai além da simples identificação da origem do material, permitindo calcular a contribuição específica de cada autor ou catálogo para o produto final. O objectivo é estruturar um modelo de divisão de receitas proporcional à participação identificada, tornando o processo de remuneração mais transparente e alinhado com o valor real aportado por cada obra.
A Sony ainda não revelou quando a tecnologia estará disponível comercialmente, mas já manifestou a expectativa de que os desenvolvedores de IA integrem o sistema nos seus próprios modelos e que empresas de conteúdos recorram à ferramenta nas negociações de licenciamento. Esta iniciativa surge numa altura em que cresce a pressão sobre empresas de IA, acusadas de usar material protegido por direitos de autor sem autorização, especialmente no sector musical, onde geradores de música com vozes de artistas conhecidos proliferaram online, levando as editoras e gravadoras a recorrer a vias judiciais para proteger os seus interesses.
Contexto legal e comercial: um sector em transformação
Actualmente, editoras e gravadoras recolhem royalties sempre que músicas são executadas em filmes, séries televisivas ou plataformas de streaming, distribuindo posteriormente os valores aos titulares dos direitos. Caso seja possível identificar com precisão quais obras alimentaram modelos de IA, abre-se a possibilidade de cobrança de royalties também neste novo contexto, ampliando o leque de receitas e trazendo para o universo digital um modelo mais justo de remuneração.
No entanto, a adesão das empresas de IA permanece incerta. Uma parte significativa do sector argumenta que os desenvolvedores privilegiam a performance dos modelos e a sua escalabilidade, relegando para segundo plano mecanismos de controlo de propriedade intelectual. Esta resistência pode dificultar a implementação de soluções como a proposta pela Sony, pelo menos numa primeira fase.
Ao propor uma ferramenta que quantifica a contribuição de cada obra numa faixa gerada por IA, a Sony procura criar um padrão técnico que sustente futuras negociações. Em vez de uma abordagem meramente judicial, aponta-se para um modelo de partilha de receitas baseado em dados concretos, o que pode contribuir para um ambiente mais colaborativo e menos litigioso.
Implicações para a indústria musical portuguesa e europeia
No contexto português e europeu, esta tecnologia pode representar um avanço significativo na protecção dos direitos de autor e na valorização do património musical. Num mercado onde a digitalização e a utilização de IA estão a transformar a produção e o consumo musical, a possibilidade de rastrear e quantificar a utilização de obras originais é fundamental para garantir que autores e titulares de direitos sejam devidamente compensados.
A indústria musical portuguesa enfrenta desafios específicos, nomeadamente a dificuldade em monetizar obras no ambiente digital e a necessidade de proteger criadores face ao uso não autorizado das suas músicas. Uma tecnologia deste tipo poderia reforçar a posição das editoras, sociedades de autores e artistas nacionais, proporcionando-lhes ferramentas para negociar com plataformas digitais e empresas de IA de forma mais eficaz.
No panorama europeu, onde o debate sobre direitos de autor e IA está em pleno desenvolvimento, a iniciativa da Sony pode servir de catalisador para a adopção de modelos de remuneração mais transparentes e justos. O Parlamento Europeu tem vindo a discutir legislação sobre o uso de dados e obras protegidas em sistemas de IA, e uma ferramenta capaz de quantificar a participação de cada obra pode ser um argumento adicional na defesa dos direitos dos criadores.
Análise crítica: entre inovação e riscos
Embora a tecnologia proposta pela Sony represente um passo importante na protecção dos direitos de autor e na adaptação da indústria musical à era digital, subsistem algumas dúvidas e riscos. Em primeiro lugar, a eficácia do sistema dependerá da qualidade dos algoritmos e da abrangência dos catálogos utilizados; obras menos conhecidas, ou de mercados periféricos como o português, podem não ser facilmente rastreáveis, perpetuando assim desigualdades.
Além disso, a dependência de acordos entre empresas de IA e titulares de direitos pode gerar novos desafios negociais, especialmente num sector onde o poder está frequentemente concentrado nas mãos de grandes plataformas tecnológicas. Cabe à indústria portuguesa, e europeia, garantir que os interesses dos criadores locais não sejam relegados para segundo plano.
Finalmente, importa considerar que a tecnologia, por si só, não resolve o problema da remuneração justa: será necessário um enquadramento legal robusto, uma fiscalização eficaz e um compromisso ético das empresas envolvidas para garantir que esta inovação contribua efectivamente para um sector musical mais sustentável e equitativo.
Em suma, a proposta da Sony pode ser uma oportunidade para redefinir os modelos de receitas da indústria musical, mas exige atenção crítica e estratégias adequadas para que os benefícios sejam distribuídos de forma justa e inclusiva, especialmente para os criadores portugueses e europeus.
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