Spotify anuncia o lançamento do “Perfil de Gostos” e permite aos utilizadores editarem o algoritmo pela primeira vez
O Spotify revoluciona a experiência dos utilizadores ao permitir, pela primeira vez, a personalização directa do algoritmo com o novo "Perfil de Gosto". A funcionalidade, que estreia em versão beta, promete transformar a forma como descobrimos música.
Redação PORTA B
19 de março de 2026

Spotify permite aos utilizadores editarem o algoritmo pela primeira vez com o novo "Perfil de Gosto"
O Spotify, uma das plataformas de streaming de música mais populares do mundo, anunciou recentemente uma funcionalidade inovadora que promete mudar a forma como os utilizadores interagem com o serviço: o “Perfil de Gosto”. Este novo recurso, lançado inicialmente em versão beta para assinantes Premium na Nova Zelândia, dá aos utilizadores a possibilidade inédita de intervir directamente no algoritmo da plataforma, moldando-o de acordo com as suas preferências pessoais. A funcionalidade deverá chegar a outros mercados num futuro próximo.
O que é o "Perfil de Gosto"?
O "Perfil de Gosto" é uma ferramenta que reúne todo o histórico de consumo do utilizador na plataforma. Este histórico inclui músicas, podcasts e, em alguns mercados, até audiolivros. Além disso, tem em conta padrões como os horários de escuta e os tipos de conteúdos consumidos em diferentes momentos do dia. Em essência, funciona como um espelho do comportamento e das preferências de áudio de cada utilizador.
A grande novidade é que, pela primeira vez, os utilizadores podem não só visualizar este "resumo" do seu gosto, mas também alterá-lo. O Spotify explica que será possível indicar preferências de forma activa, solicitando mais ou menos de certos artistas, géneros ou até “vibes”. Caso o algoritmo interprete mal os gostos do utilizador, este poderá corrigir esses erros, algo que até agora não era possível.
Além disso, a plataforma introduziu a possibilidade de contextualizar o consumo. Por exemplo, se estiver a treinar para uma maratona ou a ouvir podcasts no caminho para o trabalho, o utilizador poderá fornecer essa informação ao Spotify, permitindo que o algoritmo ajuste as recomendações de acordo com o contexto.
Porquê esta mudança?
Esta atualização não surgiu do nada. Segundo dados do próprio Spotify, mais de 80% dos seus utilizadores consideram a personalização como o principal motivo para utilizarem a plataforma. Contudo, até agora, o sistema de recomendações baseava-se quase exclusivamente em algoritmos automáticos, com pouca transparência e limitada possibilidade de intervenção por parte dos utilizadores. A única forma de “controlar” o algoritmo era eliminando músicas específicas ou evitando que playlists influenciassem as recomendações.
O "Perfil de Gosto" vem, assim, responder a uma necessidade crescente por maior controlo e personalização. Um dos problemas mais comuns que esta funcionalidade parece tentar resolver é o das recomendações “poluídas”. Por exemplo, para quem tem filhos, é frequente que o algoritmo seja dominado por músicas infantis. O mesmo pode acontecer com quem utiliza playlists funcionais, como sons de meditação ou música para concentração, que acabam por influenciar negativamente as sugestões futuras. Com o "Perfil de Gosto", os utilizadores podem agora sinalizar estes conteúdos para que sejam ignorados ou minimizados.
O impacto na indústria musical
Esta nova abordagem tem implicações que vão muito além da experiência do utilizador. Trata-se de uma potencial mudança de paradigma na forma como a indústria musical opera em plataformas de streaming. Até agora, as recomendações automatizadas desempenhavam um papel crucial na descoberta de novos artistas e músicas. Com o aumento do controlo por parte do utilizador, essa dinâmica pode mudar significativamente.
Por um lado, os artistas e as editoras poderão precisar de adaptar as suas estratégias para garantir que continuam a aparecer nas recomendações, agora que os utilizadores podem afinar os seus algoritmos para priorizar ou ignorar certos conteúdos. Isto pode levar a uma maior segmentação da música e a um foco ainda maior em nichos específicos de mercado.
Por outro lado, esta funcionalidade também pode melhorar a relevância das recomendações, aumentando o engagement dos utilizadores com a plataforma. Com recomendações mais alinhadas com os seus gostos reais, os utilizadores poderão passar mais tempo no Spotify, o que é crucial para o modelo de negócio baseado em assinaturas e receitas de publicidade.
Benefícios e riscos da personalização extrema
Embora o "Perfil de Gosto" tenha um potencial enorme para enriquecer a experiência do utilizador, também levanta algumas questões importantes. Por exemplo, ao permitir aos utilizadores moldar o algoritmo de forma tão directa, há o risco de criar bolhas de consumo ainda mais fechadas. Isto poderia levar a uma menor diversidade musical e a uma redução na descoberta espontânea de novos artistas ou géneros.
No entanto, o Spotify parece estar a apostar numa abordagem equilibrada, combinando a força da inteligência artificial com a intervenção humana. A ideia é que o algoritmo continue a oferecer sugestões diversificadas, mas com um grau maior de personalização e relevância.
Repercussões no mercado português e europeu
No contexto português e europeu, o lançamento do "Perfil de Gosto" poderá ter implicações específicas. Por um lado, esta nova funcionalidade pode ajudar artistas independentes e de nicho a alcançarem públicos mais segmentados, especialmente em géneros musicais menos mainstream, como o fado ou a música tradicional. Por outro lado, a personalização extrema poderá prejudicar a descoberta de novos talentos emergentes que dependem das recomendações automáticas para chegarem a um público mais amplo.
Além disso, vale a pena questionar como este movimento pode impactar a já frágil situação financeira dos músicos na Europa, particularmente em mercados menores como o português. Se por um lado a personalização poderá aumentar o consumo de música, por outro, a pressão para "jogar com o algoritmo" e competir por espaço nas recomendações pode tornar-se ainda mais intensa.
Conclusão
O lançamento do "Perfil de Gosto" representa um passo significativo na evolução dos serviços de streaming, colocando os utilizadores no centro do processo de curadoria. Contudo, como em qualquer inovação, é essencial um equilíbrio cuidadoso entre personalização e descoberta. No caso português e europeu, o impacto poderá ser tanto positivo como desafiante, especialmente para os artistas que dependem da visibilidade proporcionada por estas plataformas. O futuro dirá se esta maior autonomia dos utilizadores será um aliado ou um obstáculo à diversidade musical no streaming.
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