Udio Assina Novo Acordo de Licenciamento de IA com a Merlin
A Udio firmou um acordo pioneiro com a Merlin, garantindo royalties aos artistas independentes pela utilização das suas músicas no treino de inteligência artificial. Este marco reforça a ligação entre tecnologia e criatividade no sector musical.
Redação PORTA B
8 de março de 2026

Udio celebra acordo de licenciamento com a Merlin: um marco para a música independente e a inteligência artificial
A empresa de inteligência artificial generativa Udio anunciou recentemente um acordo inédito com a Merlin, a organização que representa milhares de editoras e distribuidoras independentes em todo o mundo. Este marco representa o primeiro grande contrato da Udio com o sector independente, permitindo que artistas e editoras recebam royalties pela utilização das suas músicas nos processos de treino da inteligência artificial da empresa.
Os pormenores do acordo
O acordo assinado entre a Udio e a Merlin permitirá que os artistas, editoras e distribuidores sob o guarda-chuva da Merlin optem por participar no programa de licenciamento. Apesar da importância do anúncio, a Udio não avançou detalhes sobre a estrutura de remuneração que será aplicada aos participantes. Além disso, não foi esclarecido se os membros da Merlin serão compensados retroativamente pela utilização de conteúdos que possam ter sido utilizados para treinar a IA antes deste acordo.
Este entendimento surge após a Udio ter estabelecido parcerias semelhantes com dois dos maiores grupos discográficos a nível global, a Universal Music Group (UMG) e a Warner Music Group (WMG). No entanto, a relação entre estas partes não começou de forma harmoniosa. Antes dos acordos, a Udio enfrentava processos judiciais por parte das três maiores editoras – UMG, WMG e Sony Music – que a acusavam de violação de direitos de autor devido à alegada utilização de materiais protegidos para treinar os seus algoritmos, sem o devido consentimento. Enquanto os acordos com a UMG e a WMG resultaram na retirada dessas queixas, a Sony mantém a sua ação judicial contra a Udio em aberto.
A visão por trás do contrato
Charlie Lexton, CEO da Merlin, destacou a importância de estabelecer parcerias que respeitem os direitos dos artistas e garantam uma remuneração justa pelo uso das suas criações. Segundo Lexton, a colaboração com a Udio foi o culminar de longas conversações baseadas em transparência e consentimento. O responsável elogiou ainda a visão da Udio e o respeito demonstrado pela empresa em relação aos seus parceiros e artistas.
Este acordo vem na sequência de outra parceria significativa da Merlin com a ElevenLabs, uma empresa de inteligência artificial que também tem investido em conteúdos relacionados com o sector musical. A crescente interação entre entidades independentes e empresas de IA levanta questões importantes sobre a forma como estas tecnologias devem operar no mercado musical e como podem beneficiar todas as partes envolvidas.
A análise crítica: um novo caminho para a indústria musical?
O anúncio deste acordo é, sem dúvida, um marco na relação entre o sector musical independente e as tecnologias de inteligência artificial. As editoras e artistas independentes, que historicamente enfrentaram desafios para assegurar uma compensação justa pelo uso das suas obras, têm agora a oportunidade de participar num modelo de licenciamento que lhes promete retorno financeiro. No entanto, a falta de clareza sobre os detalhes financeiros e sobre potenciais compensações retroativas suscita dúvidas legítimas sobre a verdadeira equidade deste acordo.
A Udio tem enfrentado escrutínio público e legal pela sua abordagem à utilização de conteúdos protegidos para o treino de IA. Os acordos com grandes grupos como a UMG e a WMG podem ser vistos como tentativas de mitigar o impacto das acusações de violação de direitos de autor e, ao mesmo tempo, legitimar a sua presença no mercado. Este novo entendimento com a Merlin é um passo importante para expandir o alcance da Udio no universo da música independente, mas não é isento de desafios éticos e legais.
Por um lado, o acordo permite que os artistas independentes tenham acesso a uma nova fonte de rendimento num mercado cada vez mais dominado pelos grandes players e pela tecnologia. Contudo, a ausência de informação transparente sobre os termos de pagamento e a omissão sobre a compensação por utilizações passadas levantam um alerta. Será que este modelo de licenciamento vai realmente trazer benefícios significativos para os artistas e editoras independentes? Ou será que estamos perante mais um exemplo de como a tecnologia pode perpetuar desequilíbrios de poder na indústria musical?
O futuro da música e da IA
O sector musical enfrenta uma encruzilhada. Por um lado, a ascensão da inteligência artificial abre portas para novas formas de criação e produção musical, democratizando o acesso a ferramentas avançadas. Por outro, há uma necessidade urgente de regulamentação e transparência em torno do uso de conteúdos protegidos e da remuneração dos criadores.
O acordo entre a Udio e a Merlin é um primeiro passo no sentido de integrar a tecnologia de forma mais ética no panorama musical. Contudo, o sucesso desta parceria dependerá em grande parte de como os compromissos assumidos serão implementados e se os artistas e editoras independentes sentirão, de facto, os benefícios prometidos.
A indústria musical deve aproveitar esta oportunidade para estabelecer precedentes claros no que diz respeito ao uso da inteligência artificial. A Udio pode ter iniciado uma nova era de colaboração entre tecnologia e música, mas a verdadeira questão reside em saber se esta colaboração será capaz de beneficiar todos os intervenientes de forma justa e sustentável. Fica por ver se este acordo será um exemplo a seguir ou apenas mais um episódio de promessas não concretizadas no sector.
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