UMG cresce 5,7% em 2025, mas desaceleração do streaming e debate sobre IA marcam balanço da Universal Music
A Universal Music Group registou um crescimento de 5,7% em 2025, mas enfrenta desafios significativos com a desaceleração do streaming em mercados maduros e o impacto crescente da inteligência artificial no sector musical. O futuro da indústria exige inovação e adaptação para responder a estas transformações.
Redação PORTA B
7 de março de 2026

UMG regista crescimento de 5,7% em 2025, mas enfrenta desafios com desaceleração do streaming e debate sobre IA
O balanço financeiro mais recente da Universal Music Group (UMG) revela um crescimento de 5,7% nas receitas em 2025, mas os números vêm acompanhados de sinais de transformação e desafios no sector musical. Apesar do aumento nos ganhos, a desaceleração do crescimento do streaming nos mercados mais maduros e as discussões em torno da inteligência artificial (IA) colocam em evidência a necessidade de adaptação e inovação na indústria.
A desaceleração do streaming em mercados maduros
O streaming, que durante anos foi o motor de crescimento da indústria musical, começa agora a mostrar sinais de saturação em mercados onde o modelo já está consolidado. Segundo o relatório, as receitas de streaming por subscrição alcançaram 1,26 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2025, o que representa um aumento de 7,7% em moeda constante. No entanto, o crescimento total das receitas de streaming de música gravada foi de 4,7% no acumulado do ano, atingindo os 6,32 mil milhões de euros.
Embora os números continuem a ser positivos, a desaceleração em mercados desenvolvidos, como os Estados Unidos e a Europa Ocidental, sugere que o streaming pode estar a aproximar-se de uma fase de maturidade. Este cenário coloca uma pressão crescente sobre as grandes editoras musicais para diversificar as suas fontes de receita e explorar novas oportunidades.
O regresso das vendas físicas e o papel do vinil
Curiosamente, um dos destaques do relatório foi o crescimento significativo das vendas físicas, que subiram 21,3% no quarto trimestre, atingindo os 524 milhões de euros. Este aumento deve-se principalmente ao ressurgimento do vinil, particularmente nos mercados americano e europeu. Este formato, que muitos consideravam obsoleto, está agora a afirmar-se como um símbolo de autenticidade e um objeto de desejo para os fãs mais dedicados.
Este fenómeno do vinil, que inicialmente parecia ser apenas uma moda passageira, tem vindo a consolidar-se como uma fonte de receita relevante para o sector. Em Portugal, por exemplo, o vinil tem registado uma popularidade crescente, com lojas independentes e feiras de discos a prosperarem, enquanto artistas locais apostam cada vez mais neste formato para lançamentos exclusivos.
Inteligência artificial: ameaça ou oportunidade?
Um dos pontos mais debatidos no relatório é o impacto da inteligência artificial na indústria musical. Apesar das preocupações generalizadas sobre o uso de IA para criar músicas que possam competir com produções humanas, a UMG mantém uma perspetiva optimista. "Estamos convictos de que a IA representa oportunidades comerciais sem precedentes, tanto no curto como no longo prazo", afirmou um porta-voz da empresa.
Os dados do relatório mostram que o consumo de conteúdos gerados por IA ainda é marginal. Os artistas criados por IA ocuparam posições entre a 7.049ª e a 92.141ª nos rankings globais de streaming em 2025, e o consumo global desse tipo de conteúdo representou menos de 0,5% das audições nas plataformas digitais. Apesar disso, o potencial disruptivo da IA não deve ser subestimado, especialmente no que diz respeito à criação de novos formatos de consumo e à personalização da experiência do utilizador.
Em Portugal, a adopção de IA na música ainda é incipiente, mas não deixa de levantar questões éticas e legais, sobretudo no que toca à propriedade intelectual e aos direitos de autor. A entrada de conteúdos gerados por IA no mercado pode vir a alterar profundamente a relação entre artistas, editoras e consumidores.
Superfãs e novas estratégias de monetização
Outro eixo estratégico destacado pela UMG é a monetização de superfãs. Embora este público seja considerado altamente dedicado, a empresa reconhece que ainda está longe de atingir o seu potencial em termos de geração de receitas. Actualmente, a UMG opera cerca de 1.600 lojas online directas ao consumidor, movimentando centenas de milhões de euros em vendas de produtos e experiências relacionadas com os artistas.
Em Portugal, o conceito de superfãs também tem vindo a ganhar importância, especialmente com o crescimento de plataformas de financiamento colectivo e de clubes de fãs exclusivos. A criação de experiências personalizadas, como concertos intimistas e edições limitadas de merchandising, pode tornar-se uma ferramenta poderosa para fortalecer a ligação entre artistas e o público, ao mesmo tempo que gera novas fontes de rendimento.
Desafios financeiros e perspectivas para o futuro
O relatório da UMG trouxe ainda uma decisão significativa do ponto de vista financeiro: a suspensão da proposta de uma listagem secundária de acções nos Estados Unidos. A empresa justificou a decisão com a volatilidade do mercado e a avaliação actual das acções, considerando que o momento não era oportuno para avançar com esta operação.
Para a indústria musical europeia, esta decisão pode ser vista como um reflexo das incertezas económicas globais e da necessidade de adoptar uma abordagem cautelosa em tempos de transformação. À medida que o streaming entra numa fase de maturidade e a IA emerge como uma força disruptiva, as grandes editoras terão de equilibrar inovação com sustentabilidade financeira.
Reflexão sobre o impacto na indústria musical portuguesa
No contexto português, os desafios identificados pela UMG não são alheios à realidade do mercado local. O streaming tornou-se a principal forma de consumo musical, mas enfrenta a barreira de um mercado limitado em dimensão. Por outro lado, o ressurgimento do vinil e a aposta em experiências para superfãs oferecem oportunidades para artistas independentes e editoras nacionais que procuram alternativas ao modelo tradicional.
Num momento em que a indústria global atravessa uma fase de transformação, Portugal tem a possibilidade de se afirmar como um laboratório de inovação, aproveitando as suas especificidades culturais para criar novos modelos de negócio que possam ser exportados para outros mercados europeus. Contudo, será essencial garantir que os artistas e criadores tenham um papel central neste processo, protegendo os seus direitos e promovendo um sector musical mais justo e sustentável.
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