UNESCO alerta que IA pode diminuir receitas da música em 24% até 2028
A UNESCO alerta que a Inteligência Artificial generativa pode reduzir as receitas da música em até 24% até 2028, caso não sejam adotadas políticas eficazes. A crescente oferta de conteúdos intensifica a competição e ameaça a sustentabilidade económica dos criadores.
Redação PORTA B
24 de fevereiro de 2026

Inteligência Artificial e o impacto económico na música: um alerta global
A chegada da Inteligência Artificial generativa está a provocar uma profunda transformação na indústria musical, levantando preocupações quanto ao futuro económico dos seus criadores e estruturas. De acordo com um relatório da UNESCO, a receita da música poderá sofrer uma redução de até 24% até 2028, caso não sejam implementadas políticas eficazes para enfrentar os desafios que esta tecnologia acarreta.
A competição pela atenção e a pressão sobre os criadores
O avanço da IA generativa intensifica a competição pelo tempo de escuta do público, ao aumentar exponencialmente o volume de conteúdos disponíveis. Na prática, mais oferta está a disputar o mesmo espaço, o que pode comprimir ainda mais a remuneração média dos criadores por obra. Para a indústria musical, este cenário representa uma ameaça significativa num mercado já marcado pela instabilidade financeira.
Adicionalmente, a concentração do mercado em poucas plataformas digitais, aliada à opacidade dos seus sistemas de curadoria, dificulta a visibilidade dos artistas independentes. Quem já depende de algoritmos para alcançar o seu público enfrenta um desafio acrescido quando parte do catálogo disponível começa a ser gerado por máquinas. Esta transformação, embora tecnológica, tem um impacto humano profundo, especialmente para os artistas que lutam por sustentabilidade económica.
Desigualdades e fragilidades no mercado global
Em 2023, o comércio global de bens culturais atingiu 254 mil milhões de dólares, sendo que 46% das exportações culturais vieram de países em desenvolvimento. Contudo, quando se trata de serviços culturais, como a música digital, esses mesmos países representam apenas 20% do total global. Esta disparidade tem tendência para aumentar à medida que o mercado migra para formatos digitais, exacerbando desigualdades económicas e culturais.
Outro dado preocupante é o baixo financiamento público na cultura, que permanece abaixo de 0,6% do PIB global e continua em declínio. Sem investimentos adequados e dados estatísticos consistentes sobre o consumo cultural digital — algo que apenas 48% dos países monitorizam —, torna-se difícil desenvolver políticas que protejam os criadores e garantam uma distribuição justa de receitas.
A mobilidade internacional também expõe desequilíbrios significativos. Enquanto 96% dos países desenvolvidos apoiam a exportação de artistas, apenas 38% facilitam a entrada de criadores oriundos de países em desenvolvimento. Este obstáculo limita a circulação de talento, o intercâmbio cultural e a possibilidade de gerar rendimentos num mercado globalizado.
O impacto na liberdade artística e na igualdade de género
O relatório da UNESCO alerta para as ameaças à liberdade artística, com 61% dos países a manterem organismos independentes de monitorização. Entretanto, instabilidade política, conflitos e vigilância digital continuam a criar barreiras para os artistas, sobretudo em ambientes online, onde a liberdade de expressão enfrenta novos desafios.
Na questão da igualdade de género, embora tenha havido avanços na liderança feminina em instituições culturais nacionais, que passou de 31% em 2017 para 46% em 2024, as diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento são ainda expressivas. Em países desenvolvidos, 64% das lideranças culturais são ocupadas por mulheres, enquanto nos países em desenvolvimento esta percentagem fica nos 30%.
A redistribuição do valor na música: um cenário preocupante para Portugal e Europa
A projecção de uma perda de até 24% na receita da música não significa apenas menos rendimentos para os artistas. Este cenário aponta para uma redistribuição de valor no ecossistema musical, onde empresas que dominam infraestruturas digitais e tecnologias de IA podem absorver recursos que antes eram destinados aos criadores. O elo criativo, que é o coração da indústria musical, corre o risco de sair enfraquecido.
Para Portugal e restantes países europeus, onde a música é parte integrante da identidade cultural e uma fonte relevante de exportação, este impacto pode ser devastador. A música portuguesa, que já enfrenta desafios para se afirmar internacionalmente, pode ver o seu espaço reduzido numa paisagem dominada por algoritmos e conteúdos gerados por IA. Sem uma resposta política e regulatória eficaz, os artistas nacionais e independentes ficarão ainda mais vulneráveis.
O papel das políticas públicas e o futuro da música
A UNESCO sublinha a importância de reforçar políticas públicas para proteger os criadores. É fundamental actualizar os marcos regulatórios e implementar mecanismos de remuneração justa que respondam ao uso de obras em sistemas de IA. O relatório destaca mais de 8.100 medidas adoptadas por países signatários da Convenção de 2005 e 164 projectos financiados pelo Fundo Internacional para a Diversidade Cultural em países do Sul Global.
É evidente que o debate sobre a IA no sector musical não se resume a questões tecnológicas. Este é um problema económico, cultural e estrutural, que exige respostas céleres e eficazes. Após a revolução do streaming, a IA representa uma nova onda de reorganização do mercado. Desta vez, contudo, a necessidade de definir regras e compensações deve acompanhar, ou mesmo antecipar, o ritmo acelerado da inovação.
Para Portugal e para a Europa, há uma oportunidade única de liderar este debate, promovendo medidas de protecção que não só garantam a sustentabilidade económica dos artistas, mas também salvaguardem a diversidade cultural e criativa que define o continente.
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