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Projeto BRIDGE, da WIN, revela que América Latina gera 21% dos streams globais, mas apenas 7% da receita; Brasil cresce 14,1% e evidencia o desequilíbrio

A América Latina destaca-se como líder no consumo de música via streaming, representando 21% dos streams globais; contudo, o retorno financeiro permanece desproporcional, com apenas 7% da receita mundial. O Brasil, em particular, registou um crescimento de 14,1%, sublinhando as disparidades económicas na região.

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Redação PORTA B

30 de abril de 2026

5 min de leitura|89 leituras
Projeto BRIDGE, da WIN, revela que América Latina gera 21% dos streams globais, mas apenas 7% da receita; Brasil cresce 14,1% e evidencia o desequilíbrio

Projeto BRIDGE: América Latina lidera em streams, mas enfrenta desequilíbrio económico

A iniciativa BRIDGE, promovida pela WIN (Worldwide Independent Network), revelou recentemente um conjunto de relatórios e ferramentas que analisam o funcionamento do ecossistema digital em mercados emergentes. Os dados apresentados destacam a América Latina como um caso paradigmático, evidenciando o contraste entre o seu peso no consumo de música global e o retorno financeiro gerado.

Crescimento impulsionado pelo streaming, mas com desequilíbrios evidentes

A América Latina tem registado um crescimento contínuo e significativo na indústria da música, impulsionado sobretudo pelo streaming. De acordo com o relatório, a região foi a mais dinâmica do panorama global em 2025, com uma taxa de crescimento de 17,1% e 16 anos consecutivos de expansão. O streaming representa atualmente 88,1% da receita de música gravada na região, um valor superior à média global.

Este crescimento reflete-se também no comportamento dos consumidores. A América Latina apresenta uma das maiores taxas de utilizadores que ouvem música semanalmente, com um tempo médio de escuta quase o dobro do registado em outras regiões do mundo. Estes dados sublinham o elevado nível de envolvimento do público latino com o consumo musical.

Descompasso entre consumo e receita

Apesar de representar cerca de 21% dos streams globais, a América Latina responde por apenas 7% da receita gerada por streaming. Este descompasso entre o consumo e o retorno financeiro tem explicações claras, segundo o estudo da WIN. Três fatores principais contribuem para esta discrepância: preços de assinatura mais baixos, a forte presença de modelos gratuitos suportados por publicidade, e um menor gasto médio por utilizador. Em suma, apesar de o público ser numeroso e engajado, o valor pago por este consumo permanece significativamente baixo.

O caso do Brasil: crescimento robusto com desafios persistentes

O Brasil emerge como um dos principais motores do crescimento na América Latina, com uma taxa de expansão de 14,1%. O país possui uma estrutura mais consolidada em comparação com outros mercados da região, com um ecossistema robusto de artistas, editoras e distribuidores. O consumo interno é diversificado e forte, com géneros musicais locais a dominar as plataformas de streaming.

No entanto, os desafios são semelhantes aos enfrentados pelo restante da região. A baixa monetização por utilizador continua a ser uma barreira significativa para o crescimento financeiro do setor. Além disso, as empresas independentes enfrentam dificuldades para competir com grandes players globais, que dispõem de mais capital, tecnologia e ferramentas de marketing. Este cenário cria uma dependência de intermediários internacionais, especialmente no que toca à distribuição digital.

A exportação de artistas brasileiros para o mercado global é outro obstáculo identificado. Apesar de uma cena local vibrante, transformar talentos nacionais em nomes reconhecidos internacionalmente permanece um desafio, condicionado tanto por barreiras estruturais como pelas dinâmicas das plataformas de streaming.

Obstáculos estruturais e económicos

O estudo da WIN aponta uma série de obstáculos que transcendem o consumo e afetam diretamente o funcionamento do mercado musical na América Latina. O primeiro deles é o financiamento. As editoras e distribuidoras independentes têm acesso limitado a capital, o que impacta negativamente áreas como campanhas de marketing e o desenvolvimento de artistas. Esta limitação reduz a capacidade de competição num mercado cada vez mais concentrado e dominado por grandes conglomerados.

Outro ponto crítico é a distribuição digital, onde as empresas independentes enfrentam dificuldades para garantir uma presença robusta e competitiva. A necessidade de recorrer a intermediários internacionais acaba por reduzir as margens de lucro e a autonomia estratégica destas empresas.

Impactos na indústria musical portuguesa e europeia

A análise dos dados e tendências apresentadas pelo projeto BRIDGE levanta questões pertinentes para o mercado musical português e europeu. Embora a situação na América Latina seja específica, existem paralelismos que merecem reflexão. O streaming também domina o consumo musical na Europa, mas os desafios relacionados com a monetização, a concentração de poder nas mãos de grandes plataformas e as dificuldades enfrentadas pelos intervenientes independentes são universais.

No caso português, as editoras e artistas independentes enfrentam desafios semelhantes aos descritos no relatório da WIN, nomeadamente no que toca ao acesso a financiamento e à concorrência com grandes players internacionais. Além disso, o mercado português depende fortemente do consumo interno, com exportações limitadas de música nacional. Este é um aspeto que deve ser alvo de maior atenção estratégica, especialmente num contexto em que a música portuguesa tem potencial para alcançar públicos internacionais.

Por outro lado, a Europa tem a vantagem de possuir uma maior capacidade de regulamentação e de negociação coletiva, algo que pode ser utilizado para mitigar os desequilíbrios económicos e promover uma distribuição mais justa das receitas de streaming. A aposta em colaborações transnacionais e o desenvolvimento de tecnologias locais podem ser soluções para reforçar o posicionamento da indústria musical europeia num mercado global cada vez mais competitivo.

Reflexão final

O projeto BRIDGE fornece uma análise detalhada dos gargalos que limitam o crescimento do mercado musical na América Latina, mas também levanta questões universais sobre o futuro da indústria. Num momento em que o streaming continua a dominar o ecossistema digital, é crucial que mercados emergentes e consolidados, como Portugal e outros países europeus, aprendam com os desafios enfrentados por regiões como a América Latina. Apenas com uma abordagem estratégica, que combine inovação, regulação e apoio aos atores independentes, será possível garantir um crescimento sustentável e equilibrado para todos os intervenientes na indústria global da música.

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