MÚSICA

LOSIENTO transforma a passerelle num manifesto com KILL ME BEFORE THE WAR

A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.

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Redação PORTA B

7 de julho de 2026

3 min de leitura|8 leituras
LOSIENTO transforma a passerelle num manifesto com KILL ME BEFORE THE WAR

LOSIENTO: "KILL ME BEFORE THE WAR" – A Moda como Manifesto Contra a Indiferença no Portugal Fashion Experience

A marca portuense LOSIENTO apresentou uma das propostas mais marcantes do Portugal Fashion Experience 2026, com a sua coleção para outono/inverno 2027, intitulada "KILL ME BEFORE THE WAR". Longe de se limitar à estética, a marca transformou a passerelle num veículo de reflexão profunda, questionando os ciclos de violência e a perda de empatia. Este desfile configurou-se como um manifesto visual sobre a condição humana num mundo cada vez mais incerto.

O ADN Conceptual de uma Marca Portuense

Fundada no Porto em 2018 por José Vieira e João Pereira, LOSIENTO tem-se distinguido pela sua abordagem experimental e uma forte componente conceptual. A marca, integrada no programa de incubação do Portugal Fashion, explora consistentemente a interseção entre moda, arte, música e cultura contemporânea, procurando sempre provocar o pensamento para além do impacto visual imediato.

Com "KILL ME BEFORE THE WAR", a LOSIENTO reafirmou esta filosofia, utilizando a moda como uma linguagem para explorar as consequências humanas do conflito. A coleção evitou qualquer romantização da guerra, optando por construir uma narrativa sobre vulnerabilidade, consciência e resistência. Propôs-se um olhar crítico sobre uma sociedade onde a vertiginosa velocidade da informação muitas vezes ofusca a capacidade de sentir e compreender o outro, desafiando a indiferença contemporânea.

Da Estética Militar à Atitude Punk

A inspiração militar foi imediatamente notória na coleção, mas nunca apresentada de forma literal. Casacos estruturados, golas de grandes dimensões e detalhes utilitários surgiram desconstruídos, libertando-se da simbologia tradicionalmente associada ao poder ou à autoridade. Em vez disso, estas referências foram reinterpretadas para transmitir fragilidade, proteção e, acima de tudo, humanidade.

Paralelamente a esta linguagem, a coleção incorporou influências da cultura punk, não como um mero exercício estético, mas como uma atitude intrínseca. A LOSIENTO resgatou o espírito de questionar normas estabelecidas, desafiar convenções e recusar a passividade perante os problemas atuais. O vestuário assumiu, assim, uma dimensão profundamente política e emocional, convidando à reflexão em vez da provocação gratuita. Apontamentos de inspiração religiosa adicionaram uma camada extra de significado, com símbolos reinterpretados a servirem como elementos de introspeção. Levantaram-se questões sobre valores, responsabilidade coletiva e a urgência de reencontrar referências éticas num contexto global cada vez mais fragmentado.

A paleta cromática acompanhou a narrativa de forma subtil e poderosa. Tons suaves e terrosos evocaram paisagens marcadas pelo tempo, pela memória e pelas cicatrizes deixadas pelos conflitos. Contudo, mesmo entre essa contenção visual, pairou uma sensação de esperança, sugerindo que qualquer processo de reconstrução se inicia pela consciência e pela capacidade de imaginar alternativas para o futuro.

Perspetiva

A apresentação de "KILL ME BEFORE THE WAR" pela LOSIENTO no Portugal Fashion Experience 2026 solidifica a posição da marca como uma das vozes mais pertinentes e conceptualmente ricas no panorama da moda portuguesa. Mais do que exibir vestuário, a LOSIENTO construiu um manifesto sobre os tempos que vivemos, lembrando que a moda pode e deve ser uma forma de expressão crítica.

Cada coordenado pareceu carregar uma pergunta em vez de uma resposta, desafiando o público a olhar para além da superfície e a envolver-se com as complexidades da condição humana. A marca do Porto demonstrou, uma vez mais, que a moda em Portugal tem um espaço vital para dialogar com a sociedade e para fomentar um pensamento mais profundo sobre os desafios do presente e do futuro.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 7 de julho de 2026

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