MÚSICA

Máximo fez do piano um lugar para parar no Bons Sons 2026

A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.

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Redação PORTA B

10 de agosto de 2026

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Máximo fez do piano um lugar para parar no Bons Sons 2026

Máximo: Um Convite à Introspeção que Desacelerou o Bons Sons 2026

No quarto e último dia do Bons Sons 2026, Máximo trouxe a Cem Soldos uma sonoridade inesperada que contrastou com a habitual energia vibrante do festival. O jovem pianista e compositor português ofereceu um concerto onde cada nota se expandiu, criando uma pausa reflexiva e profunda na jornada final do evento. A sua atuação transformou a agitação do festival num oásis de contemplação, convidando o público a abrandar e a escutar.

Da Academia Clássica aos Horizontes do Jazz

A relação de Máximo com o piano começou numa idade precoce, marcando o seu percurso desde os sete anos de idade, quando ingressou no Conservatório de Lisboa. Desde então, a sua formação trilhou um caminho notável, partindo das bases rigorosas da música clássica para desbravar os vastos horizontes do jazz. Atualmente, este aprofundamento continua na prestigiada Codarts Rotterdam, nos Países Baixos, um centro de excelência para a música contemporânea.

Esta fusão de referências clássicas e a liberdade do jazz são elementos distintivos que se manifestam de forma evidente na sua abordagem ao palco. A performance de Máximo é caracterizada por um rigor técnico apurado, que, contudo, nunca sacrifica a espontaneidade e a liberdade interpretativa. Esta dualidade confere à sua música uma profundidade e uma imprevisibilidade que cativam o ouvinte do primeiro ao último acorde.

Mãos que Pintam Paisagens e o Eco da Terra

Sentado ao piano, Máximo demonstrou que não necessita de grandes gestos ou movimentos exuberantes para captar e prender a atenção do público. As suas mãos, verdadeiras protagonistas da noite, assumiram o papel de narradoras, desenhando paisagens sonoras que oscilavam entre a intimidade mais recôndita e uma dimensão mais expansiva e universal. O silêncio, muitas vezes esquecido, emergiu como um componente essencial da sua música, pontuando as notas e ampliando a sua ressonância.

O percurso discográfico do artista tem sido fundamental na definição e evolução deste universo musical. O seu projeto de piano solo, "Greatest Hits", revelou desde cedo a rara capacidade de fundir composição e interpretação num único gesto criativo. Mais tarde, com o lançamento de "PANGEA" em 2024, Máximo transportou a sua linguagem musical para um território mais conceptual, abordando inquietações prementes como a eco-ansiedade. Esta preocupação intrínseca com o mundo que nos rodeia conferiu uma camada adicional de profundidade à sua atuação em Cem Soldos. A música de Máximo transcende a mera busca pela beleza; nela reside uma vontade palpável de traduzir estados de espírito complexos, perguntas existenciais e emoções que nem sempre encontram expressão através das palavras.

Perspetiva

Em um festival onde o movimento e a energia são quase constantes, houve momentos notáveis em que Cem Soldos pareceu suspender-se, em uníssono, para absorver cada nota de Máximo. O piano, com a sua presença discreta, ocupava o espaço sem a necessidade de o dominar, criando um ambiente de escuta coletiva e introspeção rara. Esta capacidade de criar uma ilha de serenidade no meio do turbilhão é um testemunho do poder da sua arte.

A projeção internacional do jovem compositor já começou a ultrapassar as fronteiras nacionais. Uma das suas composições foi selecionada para representar Portugal na Expo 2025, em Osaka, no Japão, levando a sua música para um palco global que transcende em muito o de Cem Soldos. No Bons Sons 2026, contudo, não foram necessárias grandes geografias ou cenários grandiosos. Bastaram um piano, duas mãos e um público inteiramente disposto a escutar. Máximo recordou, no fecho do festival, que por vezes, mesmo no último dia e no meio da agitação, a melhor forma de avançar é simplesmente parar, refletir e deixar a música guiar o caminho.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 10 de agosto de 2026

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