O RINOCERONTE é a nova criação do Teatro da Garagem
O Teatro da Garagem apresenta "O Rinoceronte", uma reflexão atual sobre a transformação coletiva e a erosão do pensamento crítico no teatro do absurdo.
Redação PORTA B
2 de março de 2026

O RINOCERONTE: Teatro da Garagem transforma clássico do absurdo numa reflexão contemporânea
O Teatro da Garagem apresenta a sua nova criação, O Rinoceronte, uma peça que mergulha no universo do teatro do absurdo para oferecer uma reflexão visceral sobre a transformação colectiva e a fragilidade do pensamento crítico. Inspirada no texto icónico de Eugène Ionesco, esta adaptação promete não só recuperar uma inquietação histórica, mas também confrontar o público com a sua perturbadora actualidade. Sob a direcção de Carlos J. Pessoa e a dramaturgia de Cláudia Madeira, a peça estreia no próximo dia 12 de março no Teatro Taborda, em Lisboa, onde estará em cena até ao dia 22.
Uma metamorfose que deixa de ser metáfora
Na sua essência, O Rinoceronte explora o impacto avassalador das dinâmicas de conformidade e da erosão das convicções individuais. A trama desenrola-se numa cidade aparentemente banal, onde os habitantes começam a transformar-se em rinocerontes — um a um, até que a excepção se torna norma. Este processo de metamorfose colectiva, que outrora era um símbolo absurdo, revela-se hoje como uma metáfora inquietantemente próxima, questionando os mecanismos que permitem que o pensamento crítico ceda espaço à uniformidade.
Em cena, Dai Ida, Pedro Lacerda, Rita Loureiro e Rui Maria Pêgo dão corpo e voz a personagens que resistem à transformação da norma. São figuras que carregam dúvida, hesitação e cumplicidade, mas também os traços mais humanos da fragilidade, como a covardia e a vulnerabilidade. Este elenco, que opera num limiar entre o humano e o “rinoceronte”, traz ao palco uma intensidade singular, alimentando o desconforto do público ao confrontar-se com o que permanece — e como permanece — na resistência às correntes dominantes.
Encenação que transforma, dramaturgia que questiona
A nova produção do Teatro da Garagem não se limita a adaptar o texto de Ionesco. Carlos J. Pessoa constrói um palco instável e dinâmico, onde a transformação não é apenas narrada, mas visivelmente integrada no espaço cénico. A metamorfose torna-se uma presença física, quase palpável, enquanto a cidade fictícia se desmorona perante os olhos dos espectadores. Este espaço de tensão e incerteza amplifica o impacto emocional da peça, convidando quem assiste a questionar a sua própria posição face à inevitabilidade das mudanças sociais.
Paralelamente, a dramaturgia de Cláudia Madeira actualiza o clássico com elementos que reflectem os dilemas contemporâneos. A fluidez das identidades, a fragilidade das verdades absolutas e o ritmo acelerado com que os valores e convicções são desafiados na sociedade moderna ganham protagonismo nesta adaptação. Madeira consegue, assim, renovar o texto sem desvirtuar a sua essência, mantendo a densidade filosófica que caracteriza a obra original.
Uma fábula para tempos incertos
Ao trazer para o palco um clássico do absurdo que, paradoxalmente, se torna cada vez mais próximo da realidade, O Rinoceronte apresenta-se como uma fábula para tempos incertos. Num mundo onde as redes sociais amplificam vozes mas também uniformizam discursos, onde a polarização política e cultural molda identidades, esta peça surge como um alerta: até que ponto resistimos à erosão do pensamento autónomo e crítico? O que nos impede de nos transformarmos em “rinocerontes”? E o que nos define enquanto humanos face a uma norma que se impõe?
A produção do Teatro da Garagem desafia o público a olhar para estas questões de forma visceral e sem filtros, sublinhando a importância de resistir e de questionar. Mais do que uma peça de teatro, O Rinoceronte torna-se num espelho da sociedade contemporânea, uma obra que nos empurra para a reflexão sobre o nosso lugar no mundo e sobre os valores que nos definem.
Datas e bilhetes
Com estreia marcada para o dia 12 de março, O Rinoceronte estará em cena no Teatro Taborda, em Lisboa, até 22 de março. Este espaço, que tem sido a casa do Teatro da Garagem, promete acolher uma experiência imersiva que não deixará ninguém indiferente. Os bilhetes já estão disponíveis e podem ser adquiridos na bilheteira do teatro ou através das plataformas habituais de venda online.
Prepare-se para uma viagem ao coração da metamorfose e da resistência, uma reflexão urgente sobre os contornos que definem a nossa humanidade. O Rinoceronte é muito mais do que um clássico que regressa — é uma proposta necessária para enfrentar os desafios do presente.
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PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 2 de março de 2026
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