“Over What I Know” é o quarto vídeo de “Sick of The Scene” segundo disco de JUNKBREED
“Over What I Know” encerra “Sick of the Scene” com uma reflexão amarga sobre desumanização e apatia nos tempos modernos, reforçada por um videoclipe simbólico.
Redação PORTA B
5 de março de 2026

“Over What I Know” é o quarto vídeo de “Sick of the Scene”, segundo disco de JUNKBREED
JUNKBREED, o quarteto que se tem destacado na cena musical nacional pelos seus registos intensos e abordagens conceptuais, apresentou recentemente o videoclipe de “Over What I Know”, último tema do álbum Sick of the Scene. O vídeo, que já está disponível nas plataformas digitais, encerra a narrativa do disco com uma carga visual e simbólica que mergulha o espectador numa reflexão profunda sobre os dilemas da modernidade e o impacto desumanizador do progresso tecnológico.
Lançado originalmente em outubro do ano passado, Sick of the Scene é o segundo trabalho de longa duração da banda, um disco que, desde o início, se propôs a explorar temáticas ligadas à alienação, à insatisfação social e à perda de identidade individual num mundo marcado pela sobrecarga tecnológica e pela desconexão emocional. “Over What I Know”, enquanto faixa final, assume-se como o epílogo sombrio de um percurso inquietante, traduzindo, tanto na música como nas imagens, uma sensação de peso existencial que dificilmente deixa o ouvinte indiferente.
Um desfecho amargo e desumanizado
Segundo a banda, “Over What I Know” é um momento de aceitação amarga no álbum. Enquanto os temas anteriores exploravam a frustração, a inquietação e a resistência ao estado das coisas, a última música é descrita como a rendição final a uma realidade cada vez mais desumanizada. A canção, com uma estrutura musical que reflete uma descida lenta mas inevitável, enfatiza um estado de apatia e alienação. A narrativa do disco culmina aqui num silêncio ensurdecedor, ecoado pela amargura de quem já não encontra forças para lutar, mas que ainda sente o peso de uma consciência dolorosa.
Musicalmente, a faixa é uma reflexão melancólica com uma produção que mistura texturas cruas e atmosféricas. As linhas vocais de “Over What I Know” são quase murmúrios, como se o protagonista da narrativa tivesse perdido a energia até para gritar, enquanto os instrumentos se sobrepõem num crescendo que parece simular o peso da resignação. Há um tom quase cinematográfico no arranjo, como se estivéssemos a assistir a um último ato antes das luzes se apagarem definitivamente.
O impacto visual no videoclipe
Para ampliar o impacto emocional da música, o videoclipe de “Over What I Know” recorre a uma abordagem visual que sublinha a desumanização retratada ao longo do álbum. No vídeo, os membros de JUNKBREED surgem como figuras estáticas, imóveis em cenários frios e minimalistas. Esta escolha estética, longe de ser casual, representa simbolicamente a perda de humanidade e a transformação dos indivíduos em objetos inertes.
As composições visuais são marcadas por ângulos fixos, iluminação neutra e uma ausência quase completa de movimento. A banda aparece suspensa no tempo, como se estivesse presa num estado de vazio interminável. É uma metáfora direta e brutal para os efeitos do isolamento tecnológico e da desconexão emocional que, segundo o conceito do álbum, atingem a sociedade contemporânea de forma avassaladora.
O minimalismo do vídeo contrasta com a densidade sonora da música, criando um equilíbrio intrigante entre a experiência auditiva e visual. A ausência de ação por parte das figuras humanas reforça a ideia de apatia e alienação, enquanto os cenários despidos e impessoais sugerem um mundo onde a individualidade foi dissolvida em prol de uma máquina social sem rosto.
Um álbum que ecoa os desafios dos tempos modernos
Com Sick of the Scene, JUNKBREED solidificou o seu lugar no panorama musical alternativo, não apenas pela qualidade das suas composições, mas também pela profundidade conceptual dos seus trabalhos. O álbum é uma crítica direta à forma como a tecnologia, apesar das suas vantagens, tem contribuído para um distanciamento entre as pessoas e para uma sensação coletiva de insatisfação. Cada faixa, incluindo “Over What I Know”, aborda uma faceta diferente desta problemática, culminando num retrato abrangente, ainda que perturbador, da condição humana no século XXI.
Com o lançamento deste último videoclipe, a banda encerra oficialmente o ciclo criativo de Sick of the Scene, deixando uma marca inegável na música portuguesa contemporânea. É um trabalho que desafia o ouvinte a refletir sobre a sua própria relação com o mundo e com os outros, num tempo em que a conexão pessoal parece ser cada vez mais rara.
JUNKBREED demonstrou, uma vez mais, que a música pode ser muito mais do que uma experiência estética; pode ser um espelho da nossa sociedade, uma ferramenta de questionamento e, acima de tudo, uma chamada à consciência. Resta agora saber quais serão os próximos passos da banda, que, com este segundo disco, mostrou um amadurecimento notável e uma coragem artística que merece ser acompanhada de perto.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 5 de março de 2026
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