MÚSICA

Pauliteiros de Miranda levaram o som de Trás-os-Montes ao último dia do Bons Sons 2026

A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.

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Redação PORTA B

9 de agosto de 2026

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Pauliteiros de Miranda levaram o som de Trás-os-Montes ao último dia do Bons Sons 2026

Ecos de Tradição: Pauliteiros de Miranda Transfiguram o Palco do Bons Sons 2026

No quarto dia do Bons Sons 2026, a ancestralidade portuguesa irrompeu em Cem Soldos com a chegada dos Pauliteiros de Miranda. Em poucos minutos, o palco transformou-se num território vibrante de ritmo, precisão e memória, onde cada movimento ecoava séculos de história cultural. A atuação marcou um dos pontos altos do festival, sublinhando a capacidade de conciliar a contemporaneidade com as raízes mais profundas da identidade nacional.

Da Tradição Mirandesa ao Coração do Festival

Provenientes do planalto mirandês, em Trás-os-Montes, os Pauliteiros de Miranda trouxeram uma manifestação cultural que nasceu muito antes da era dos festivais. Esta dança está intrinsecamente ligada às comunidades de Miranda do Douro, onde se mantém como um pilar da vida social e cerimonial. É uma expressão que resistiu ao tempo, conservando a sua dimensão ritualística e a profundidade dos seus significados.

As danças dos pauliteiros, associadas a antigos rituais guerreiros e a danças de espadas, são um testemunho vivo da resiliência cultural. Chegaram ao presente sem perder a sua essência, revelando a força de uma herança transmitida de geração em geração. A sua presença em Cem Soldos foi um lembrete vívido da riqueza e da persistência das tradições populares portuguesas.

O início da viagem sonora foi ditado pelo som inconfundível da gaita-de-foles, que imediatamente transportou o público para as paisagens de Trás-os-Montes. Acompanhada pela batida firme da caixa e do bombo, a música criou uma base rítmica poderosa para a entrada dos dançarinos, que se lançaram numa coreografia onde cada gesto e cada passo eram deliberados e carregados de significado.

O Espetáculo de Ritmo, Cores e Coesão

A coreografia dos Pauliteiros de Miranda é um espetáculo de precisão notável. Os paulitos chocavam entre si com uma exatidão milimétrica, criando uma sucessão de movimentos rápidos que transformavam cada batida numa imagem visual impactante. Esta dança transcende a mera representação, assumindo uma força quase hipnótica que prende o olhar do observador.

A aparente simplicidade da dança esconde uma complexidade impressionante. Cada gesto exige uma coordenação apurada, concentração intensa e uma enorme cumplicidade entre os elementos do grupo. O público é convidado a seguir os paus, a tentar antecipar o próximo movimento, e rapidamente percebe a profundidade da arte e da técnica por detrás da performance.

Os trajes vibrantes são uma parte inseparável do espetáculo. As camisas brancas, as saias coloridas e ricamente bordadas, os coletes e os chapéus decorados com flores e lenços, acrescentaram uma explosão de cor a uma atuação que já tinha no movimento a sua principal linguagem visual. Estes elementos visuais complementam a narrativa da dança, enriquecendo a experiência cultural em Cem Soldos.

Perspetiva

A atuação dos Pauliteiros de Miranda em Cem Soldos demonstrou que esta tradição é muito mais do que uma memória preservada. Continua profundamente ligada às festas, romarias e ao calendário religioso das aldeias mirandesas, onde as danças assumem uma função comunitária e ritual essencial. Essa dimensão viva e participativa esteve palpável no festival, onde o passado encontrou um público de diferentes gerações, unindo-os através da cultura.

A presença dos Pauliteiros de Miranda no Bons Sons 2026 realçou uma particularidade importante do festival: a sua capacidade de colocar frente a frente diferentes tempos da música portuguesa. Num cartaz que abraça propostas contemporâneas e experiências sonoras mais recentes, os pauliteiros lembraram que a inovação também pode passar por manter vivas e relevantes manifestações culturais que atravessaram gerações, celebrando a riqueza e a continuidade do património imaterial do país.


PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 9 de agosto de 2026