MÚSICA

Rita Braga apresenta novo disco “Fado Tropical” e vídeo “Cinza e Pó”

Rita Braga lança o álbum "Fado Tropical" em vinil e o vídeo "Cinza e Pó", com colaborações de Paulo Furtado, João Cabrita e outros artistas.

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Redação PORTA B

2 de abril de 2026

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Rita Braga apresenta novo disco “Fado Tropical” e vídeo “Cinza e Pó”

Rita Braga reinventa o fado com “Fado Tropical” e lança vídeo do tema “Cinza e Pó”

Rita Braga apresenta esta quinta-feira, 2 de abril, o seu mais recente trabalho discográfico, “Fado Tropical”. Este é o quinto álbum da carreira da artista e marca um momento singular na sua trajetória: pela primeira vez, Braga entrega-se integralmente à língua portuguesa, num registo que propõe uma fusão entre as raízes do fado e uma abordagem experimental que atravessa fronteiras sonoras. O álbum é lançado em formato vinil e será acompanhado pela estreia do videoclip do tema “Cinza e Pó”, dirigido por Tiago Cerveira.

O renascimento do fado: tradição e inovação

“Fado Tropical” é uma obra que convida à redescoberta do fado enquanto expressão cultural. Partindo de uma investigação meticulosa em arquivos sonoros, textos, imagens e partituras que datam do século XIX às primeiras décadas do século XX, Rita Braga reinterpreta o género com uma abordagem inovadora. A artista explorou profundamente o universo do fado antigo, recorrendo a poemas de fadistas anónimos recolhidos em obras históricas, como História do Fado (1903), de Pinto de Carvalho, e A Triste Canção do Sul (1904), de Alberto Pimentel.

O resultado é um álbum que reinventa o fado com camadas instrumentais diversificadas, fundindo o som característico da guitarra portuguesa com instrumentos menos convencionais, como a marimba, o banjolele e a “junk percussion”. Esta ousadia musical é complementada por uma estética que evoca cenários cinematográficos e tropicais, proporcionando uma viagem sonora entre o passado e o presente.

“Cinza e Pó”: um fado de sombras e poesia

O videoclip de “Cinza e Pó”, uma das faixas mais intrigantes do disco, é outro marco desta ambiciosa empreitada artística. Realizado por Tiago Cerveira, o vídeo traduz visualmente o tom melancólico e misterioso da canção, cujas letras evocam imagens de cemitérios e esqueletos – uma referência direta à estética poética de Tom Waits. A música, composta por Rita Braga, assenta num poema de um fadista anónimo do século XIX, recuperado em A Triste Canção do Sul.

A sonoridade do tema é enriquecida pela presença de Paulo Furtado na guitarra, uma colaboração com história: Furtado e Braga já haviam cruzado caminhos em 2009, no projeto “Femina”, e posteriormente nos Coliseus de Lisboa e Porto em 2011. Em “Cinza e Pó”, juntam-se ainda João Cabrita no saxofone, Ryoko Imai na “junk percussion” e Suse Ribeiro em percussões adicionais e eletrónica, criando uma atmosfera densa e visualmente sugestiva.

Um alinhamento que homenageia e desconstrói o fado

O disco é composto por uma série de temas que oscilam entre o respeito pela tradição e a vontade de explorar novos territórios. A faixa de abertura, “Fado da Meia-Noite”, é um instrumental que revisita uma composição de 1920 para guitarra portuguesa, reinterpretada por Braga com uma combinação de marimba, ukulele, sons ambiente e saxofone. A introdução, marcada por sons de trovoada, transporta o ouvinte para um ambiente cinematográfico, como o início de um filme.

Entre os destaques, encontra-se também “Fado Tango”, uma releitura inspirada nas gravações de Ercília Costa e do célebre guitarrista Armandinho, datadas de 1930. Já em “Fado Sem Pernas”, que conta com a contribuição de Tó Trips, a abordagem ao “Fado Menor” é descrita pelo guitarrista como uma possível banda sonora para um filme de Fellini. O disco inclui ainda “Chão de Estrelas”, uma homenagem ao clássico brasileiro de Sílvio Caldas, refletindo a teoria de que o fado tem raízes no Brasil.

Outras faixas, como “Um Quarto de Hora” e “Vita Nuova”, mostram a versatilidade de Rita Braga enquanto compositora. A primeira mistura elementos de fado e marcha funerária, enquanto a segunda, nascida em 2023, representa o ponto de partida para o conceito do álbum, que foi desenvolvido após a participação da artista na Mostra das Artes da Palavra.

Uma obra que celebra a colaboração

“Fado Tropical” é também um testemunho do poder da colaboração artística. O álbum conta com participações de músicos como João Cabrita, Tó Trips, Paulo Furtado, Ryoko Imai, Bruna Moura e JP Simões, entre outros. Cada um contribuiu com texturas únicas, desde saxofones e guitarras elétricas até percussões exóticas e efeitos eletrónicos, o que resultou num trabalho multifacetado e profundamente criativo.

Com “Fado Tropical”, Rita Braga não só presta homenagem às origens do fado, como também o projeta para novos horizontes. O disco, disponível em vinil a partir de hoje, promete ser uma referência obrigatória para quem aprecia a interseção entre o tradicional e o contemporâneo.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 2 de abril de 2026

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