Salman Rushdie Entre a Ficção e a Sobrevivência
A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.
Redação PORTA B
30 de junho de 2026

A Voz Inabalável: Salman Rushdie Reflete Sobre Vida e Literatura no BABELL
Mais de três mil pessoas afluíram ao festival literário BABELL para assistir à aguardada sessão com Salman Rushdie. O aclamado autor, conhecido pela sua imaginação prodigiosa, envolveu a audiência numa conversa profunda e íntima sobre a vida, a morte e o poder da literatura, num evento marcado por significativas medidas de segurança que sublinhavam a importância do momento.
Segurança e Expectativa no BABELL
A participação de Salman Rushdie no festival BABELL foi um dos pontos altos do evento, atraindo uma vasta multidão que ansiava por ouvir uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea. Para acederem ao recinto, os mais de três mil participantes tiveram de passar por um rigoroso controlo de segurança, que incluiu revistas pessoais e detetores de metal, refletindo a singularidade e a sensibilidade em torno da presença do escritor.
Rushdie, cuja obra se debruça sobre temas complexos como religião, migração, identidade, política, história e liberdade, é reconhecido pela sua capacidade de explorar as fronteiras da imaginação. A expectativa em torno da sua intervenção era palpável, antecipando-se uma reflexão que certamente transcenderia o meramente literário, tocando nas grandes questões da existência humana.
A sessão teve início com a leitura de um excerto de uma obra, proferida pelo ator António Durães, preparando o terreno para o momento principal. Em seguida, o escritor e bibliófilo Alberto Manguel assumiu o palco, apresentando o convidado e moderando a conversa com notável mestria. Manguel soube conduzir o diálogo de forma fluida, cruzando habilmente as esferas pública e privada da vida do autor de "Os Versículos Satânicos", permitindo um vislumbre genuíno do seu percurso.
Diálogo Íntimo sobre Resiliência e Criação
Durante aproximadamente uma hora, Salman Rushdie cativou a plateia com a sua eloquência e um humor subtil. Abordando o violento atentado de que foi alvo em Nova Iorque em 2022, o escritor fê-lo com uma camada fina de ironia e uma resiliência notável. "Já a vi de perto. Prefiro não morrer", afirmou com leveza, acrescentando de forma descontraída que ainda não se sente preparado para a despedida, arrancando aplausos e risos da audiência.
O diálogo íntimo e inteligente explorou o papel crucial da imaginação em contextos de pressão e celebrou incessantemente o poder transformador da literatura. Rushdie partilhou reflexões profundas sobre a vida e a morte, ilustrando os mecanismos da sua narrativa com referências clássicas, desde a magia de "O Feiticeiro de Oz" até às tragédias shakespearianas. A plateia, visivelmente atenta e emocionada, respondeu com calorosos aplausos e risadas espontâneas.
O autor confidenciou que "escrever livros é a coisa mais difícil e gratificante que sei fazer", revelando a paixão e o esforço por trás da sua prolífica obra. Partilhou ainda memórias de infância, brincando com a coincidência do seu nascimento na Índia: "A minha família tem uma piada: eu nasci e, oito semanas depois, os britânicos fugiram", um momento que sublinhou a sua capacidade de encontrar o humor mesmo nas narrativas históricas.
Perspetiva
A reunião de milhares de pessoas num recinto para discutir literatura, num tempo em que a sociedade parece frequentemente distraída por estímulos efémeros e mediáticos, assume um significado profundo. O sucesso da sessão com Salman Rushdie no BABELL demonstra de forma inequívoca que ainda é possível aproximar as grandes obras literárias do público, reavivando o hábito da leitura e fomentando uma ligação mais profunda com o conhecimento e a arte.
Este evento reforça a convicção de que a Cultura, na sua essência circular e universal, não deve ser vista como propriedade exclusiva de um grupo ou nação. Pelo contrário, representa uma oportunidade contínua de descoberta, partilha, vivência e aprendizagem. Para o panorama cultural português e para todos os que valorizam o poder da palavra, o testemunho de Rushdie é um lembrete inspirador da importância da imaginação e da resiliência na construção de um futuro mais rico e consciente.
PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 30 de junho de 2026
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