MÚSICA

Santa Maria da Feira suspende rotinas para três dias de Imaginarius

A PORTA B traz análise aprofundada sobre os desenvolvimentos na cena cultural portuguesa.

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Redação PORTA B

20 de maio de 2026

5 min de leitura|9 leituras
Santa Maria da Feira suspende rotinas para três dias de Imaginarius

Imaginarius Transforma Santa Maria da Feira em Palco Global de Resistência e Celebra 25 Anos de Arte Pública

Santa Maria da Feira prepara-se para suspender as suas rotinas e mergulhar num novo ritmo cultural. Entre 21 e 23 de maio, o Imaginarius – Festival de Artes Performativas em Espaço Público assinala um quarto de século, convidando a cidade a acolher diferentes linguagens artísticas e a reinterpretar os seus espaços urbanos através de uma programação vasta e de acesso gratuito. O centro histórico será o epicentro de uma celebração internacional que promete desafiar perceções e fomentar o pensamento crítico.

Um Legado de Inovação e Diálogo Artístico

Ao longo de 25 anos, o Imaginarius consolidou-se como um pilar de descoberta, relação e transformação através da arte em espaço público. Longe de procurar o conforto ou o consenso, o festival tem sido um motor essencial na aproximação da criação artística à vida quotidiana, ativando o território feirense como um lugar vivido, atravessado por encontros, tensões e uma rica diversidade cultural. Esta longevidade reflete uma visão persistente de que a arte não se confina a salas fechadas, mas floresce na interação direta com a comunidade.

Numa era caracterizada pela aceleração constante, pela vigilância omnipresente e por uma crescente fragmentação social, o Imaginarius assume uma postura de resistência. O festival escolhe continuar a imaginar, posicionando a arte como uma prática fundamental para o pensamento crítico e como uma possibilidade de reconfigurar a forma como habitamos e partilhamos o espaço comum. Esta edição de aniversário não só atravessa o centro histórico da cidade, como o vive por inteiro, questionando permanentemente e deixando mais interrogações do que respostas definitivas.

A Cidade Como Palco: Destaques da Programação

A abertura oficial do Imaginarius está agendada para quinta-feira, 21 de maio, às 18h00, junto à Casa do Moinho, e será marcada pela partilha do Manifesto Imaginarius. Este momento inaugural ganhará uma reinterpretação singular pelo realizador feirense Guilherme Henriques, uma figura proeminente da videografia contemporânea ligada à música extrema e alternativa, e membro da designada "Geração Imaginarius". Ao longo de três dias, a cidade receberá 42 companhias e mais de 200 artistas oriundos de 16 países, que darão corpo a 39 espetáculos diversos, abrangendo teatro, dança, música, arte popular, artes digitais e performance, num total de 125 apresentações. Destes, cinco são estreias absolutas e 23 assinalam a sua estreia nacional, sublinhando o carácter inovador e vanguardista do festival.

Entre as propostas mais aguardadas, destaca-se "Mirage (un jour de fête)", da Cie. Dyptik, uma criação onde a ausência de um centro fixo e de uma única direção possível convida o público à circulação entre dança e movimento. A peça, atravessada por referências da região do Levante – Líbano, Palestina, Síria e Jordânia –, evoca a memória e a ideia de resistência comunitária no espaço público. Em contraste, "ADN, Odyssée Verticale", da companhia francesa Transe Express, promete suspender músicos e performers a dezenas de metros de altura, transformando o céu de Santa Maria da Feira num plano cénico sobre a cidade, numa demonstração de audácia e espetáculo aéreo.

Outras performances que prometem cativar a atenção incluem "THAW", dos australianos Legs On The Wall, que acompanha a lenta dissolução do gelo e a resistência do corpo humano ao tempo e à duração, numa metáfora poderosa sobre a fragilidade e a persistência. A intensidade das ruas do centro histórico será devolvida pelo "Correfoc", trazido pelos catalães Diables del Barri Gòtic em diálogo com o Fórum Ambiente e Cidadania, que promete uma ocupação contínua do espaço público através do fogo e do ruído. A programação integra ainda uma conferência intitulada "Imaginar: cultura, coexistência e cidade num mundo instável", a 23 de maio, às 14h30, no auditório da Biblioteca Municipal. Esta conversa, que terá como orador o urbanista e pensador Charles Landry, propõe uma reflexão aprofundada sobre a capacidade das cidades de criarem relações, identidade e formas de convivência, indo além da mera discussão de programação cultural.

Perspetiva

O Imaginarius, ao celebrar 25 anos de atividade ininterrupta, reafirma-se como um dos festivais mais importantes no panorama cultural português. A sua abordagem vanguardista, que prioriza a arte em espaço público e a interação direta com a comunidade, oferece um modelo inspirador para outras iniciativas culturais no país. Ao trazer companhias de 16 nacionalidades distintas e apresentar um número significativo de estreias, o festival não só enriquece a oferta cultural nacional, como também posiciona Portugal como um ponto de encontro para a criatividade internacional.

A capacidade do Imaginarius de integrar a reflexão crítica sobre a cidade e a coexistência no seu próprio programa, como se verifica na conferência com Charles Landry, demonstra uma maturidade que transcende o mero entretenimento. O festival não se limita a apresentar espetáculos; ele convida à participação, à reflexão e à redefinição do que é possível fazer com e através da arte em Portugal. Continua a ser uma força vital que desafia preconceitos, promove o diálogo intercultural e inspira uma nova geração de artistas e espetadores a ver o espaço público como um palco ilimitado para a expressão e a mudança.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 20 de maio de 2026

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