MÚSICA

Segue-me à Capela lançam novo álbum após dez anos sem edições

O septeto feminino Segue-me à Capela lança “Quando um fio s’ensarilha”, novo álbum que une música tradicional portuguesa e criação contemporânea, após dez anos.

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Redação PORTA B

3 de março de 2026

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Segue-me à Capela lançam novo álbum após dez anos sem edições

Segue-me à Capela lançam novo álbum após dez anos sem edições

Dez anos depois do último registo discográfico, o grupo vocal feminino Segue-me à Capela regressa aos palcos da música portuguesa com o lançamento de "Quando um fio s’ensarilha". Este novo trabalho, editado em 2026, apresenta-se como uma celebração da polifonia vocal feminina, uma fusão entre a música tradicional portuguesa e a criação contemporânea, que demonstra um profundo respeito pelo património cultural e, simultaneamente, uma vontade de o reinventar.

O fio condutor da tradição

Composto por sete vozes femininas, que servem de alicerce e instrumento principal, o Segue-me à Capela tem-se destacado ao longo das suas mais de três décadas de existência por trazer à luz a riqueza do repertório tradicional português, transportando-o para novos territórios artísticos. Neste terceiro álbum, os sete elementos do grupo assumem o “nó” como a grande metáfora que molda a narrativa sonora e poética do projeto. As imperfeições, os emaranhados e as conexões entre gerações e geografias traduzem-se em sons que, ao invés de serem escondidos ou desfeitos, são abraçados como parte essencial da criação.

"Quando um fio s’ensarilha" é o resultado de um intenso processo coletivo, onde cada fio vocal se cruza com os outros para compor uma tapeçaria rica e diversa. A base do álbum assenta em arranjos originais sobre recolhas tradicionais de referência, realizadas por nomes incontornáveis da etnomusicologia em Portugal, como Armando Leça, Michel Giacometti, Ernesto Veiga de Oliveira, Artur Santos, e Manuel Rocha, entre outros. O compromisso do grupo com a preservação e a reinterpretação do património musical do país mantém-se inabalável, agora com uma nova roupagem que conjuga tradição e modernidade.

Colaborações de peso e novas sonoridades

A força criativa deste disco passa também pelo envolvimento de figuras relevantes da música portuguesa. A cantautora e compositora Amélia Muge desempenha um papel determinante neste trabalho, não só como coautora de arranjos e poemas, mas também como uma das responsáveis pela produção e direção musical, em conjunto com a própria formação do Segue-me à Capela. A percussão vibrante de Quiné Teles enriquece ainda mais o universo sonoro do álbum, que conta também com participações de Sebastião Antunes e Stereossauro, proporcionando uma textura sonora diversa e aberta à contemporaneidade.

Para além do trabalho vocal e instrumental, a componente visual de "Quando um fio s’ensarilha" é um elemento crucial no projeto. A ilustração de Catherine Boutaud e o design gráfico de Carolina Simões reforçam, de forma visual, a ideia de fios entrelaçados, memória e conexão, encapsulando visualmente o espírito do álbum.

“Zamburra”: o primeiro nó deste novo ciclo

O primeiro single do álbum, "Zamburra", foi lançado no início de fevereiro, abrindo as portas para este novo capítulo na carreira do grupo. Inspirado numa recolha de Armando Leça feita em Malpica, no distrito de Castelo Branco, o tema é uma homenagem ao ciclo do inverno e às celebrações do Entrudo. Tradicionalmente cantada para marcar a transição entre o frio e a chegada da primavera, a canção utiliza as vozes e a percussão para evocar um ritual de renovação e resistência. "Zamburra" é um grito de vida e uma ode à essência do popular, um tema que traduz com autenticidade o espírito do novo álbum.

Com arranjos assinados por Segue-me à Capela em colaboração com Amélia Muge, Zé Martins e Quiné Teles, o tema serve de aperitivo para o que os ouvintes podem esperar de um disco que promete ser um marco na exploração da música tradicional portuguesa sob uma lente contemporânea.

Apresentação ao vivo em Coimbra

Os fãs de Segue-me à Capela têm encontro marcado no dia 7 de março, às 21h30, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, para a apresentação ao vivo de "Quando um fio s’ensarilha". Este evento será, certamente, um momento de celebração, onde o público terá a oportunidade de mergulhar no universo único do septeto e testemunhar a magia de um trabalho que é, ao mesmo tempo, um regresso às raízes e um passo em direção ao futuro.

Com este novo disco, a formação não apenas reforça o seu papel enquanto guardião da herança musical portuguesa, mas também desafia as fronteiras do que significa fazer música tradicional no século XXI. "Quando um fio s’ensarilha" não é um álbum que se limita à nostalgia; é um ponto de encontro entre o passado e o presente, entre o popular e o contemporâneo, entre a memória e a reinvenção.

Segue-me à Capela prova, assim, que a música tradicional portuguesa continua a ser um terreno fértil para a criação artística e para a reflexão sobre a nossa identidade coletiva, numa altura em que a cultura e a arte assumem um papel essencial na construção de uma sociedade mais rica e plural.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 3 de março de 2026

PORTA B — Este artigo representa a perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.