MÚSICA

Sereias apresentam "A Odisseia de Carlos Bizarro"

Sereias lançam o LP "A Odisseia de Carlos Bizarro", disponível em vinil e digital, com apresentações ao vivo a 23 e 24 de abril no Porto.

R

Redação PORTA B

17 de março de 2026

4 min de leitura|53 leituras
Sereias apresentam "A Odisseia de Carlos Bizarro"

Sereias lançam "A Odisseia de Carlos Bizarro": um manifesto sonoro para tempos distópicos

O grupo portuense Sereias está de volta com “A Odisseia de Carlos Bizarro”, o seu mais recente trabalho discográfico, já disponível em formato vinil e nas principais plataformas digitais, como Bandcamp, Apple Music e Tidal. O álbum será apresentado ao vivo em duas datas consecutivas, nos dias 23 e 24 de abril, no espaço da Lovers & Lollypops, no Porto. Este regresso marca uma nova etapa na trajetória do colectivo, que se tem firmado no panorama musical português com uma abordagem que conjuga o experimentalismo sonoro, a crítica social e uma estética profundamente interventiva.

Um disco para "ouvidos atentos"

Construído como uma narrativa que explora o percurso de vida de Carlos Bizarro, a personagem que dá nome ao álbum, este trabalho apresenta-se como uma alegoria nua e crua da existência contemporânea. Trata-se de uma odisseia que, longe do épico clássico, se debruça sobre o colapso da modernidade, refletindo sobre a precariedade, o desencanto e as contradições do nosso tempo. Mais do que um álbum de rock alternativo ou pós-rock experimental, “A Odisseia de Carlos Bizarro” é uma experiência imersiva que desafia o ouvinte a abandonar a passividade e a prestar atenção ao mundo que o rodeia.

Os próprios Sereias descrevem este trabalho como um exercício de lucidez perigosa, um grito de alerta para uma sociedade que prefere o ruído à reflexão e que insiste em normalizar o colapso que já se instalou no quotidiano. Inspirando-se na figura mitológica das sereias — simultaneamente encantadoras e mortíferas, humanas e monstruosas —, o grupo posiciona-se numa zona liminar, num espaço marginal onde o real e a fábula se misturam. É precisamente neste lugar de fronteira que surge a sua música: entre a crítica e o poético, entre o desencanto e uma possível redenção.

O anti-herói como espelho do presente

Carlos Bizarro, a figura central deste novo trabalho, é um anti-herói contemporâneo. Errante e fragmentado, caminha por paisagens que lhe são familiares: a falta de perspectivas, a promessa eterna de um futuro que nunca chega e o desgaste emocional de viver num mundo marcado pela desigualdade e pela crueldade banalizada. A sua viagem, embora fictícia, ressoa com a realidade de muitos, erguendo um espelho que reflete as fragilidades de uma sociedade saturada de ruído e vazia de escuta.

Em entrevistas recentes, os membros de Sereias têm sublinhado que este disco não é apenas uma obra musical, mas também um ato político. Para eles, o gesto de criar música interventiva, que narra os dilemas do presente, é, em si, um posicionamento contra a apatia generalizada. Assim, “A Odisseia de Carlos Bizarro” não se limita a ser um álbum de crítica social; é também uma proposta para repensarmos a nossa relação com o mundo e com a maneira como o habitamos.

Um novo marco numa discografia coerente

“A Odisseia de Carlos Bizarro” surge como o terceiro álbum de Sereias, dando continuidade a um percurso que já havia sido marcado por dois registos notáveis: “O País a Arder” (2018) e “Sereias” (2022). No primeiro, as metáforas de fogo e destruição abordavam um país à beira da combustão social e política; no segundo, o grupo consolidava a sua identidade estética, explorando as fronteiras entre o real e o mítico. Agora, com o novo álbum, a banda dá um passo em frente, aprofundando essa reflexão, mas também oferecendo uma visão ainda mais densa e madura.

Musicalmente, os Sereias continuam a explorar territórios do rock experimental com incursões em sonoridades mais contemplativas, mas sempre envoltas numa atmosfera de tensão e desconforto. Cada faixa parece desenhada para confrontar o ouvinte com a inquietação que emerge das narrativas e das paisagens sonoras, numa mistura que é tanto visceral quanto intelectual.

Apresentações ao vivo: um convite ao risco

Para experimentar “A Odisseia de Carlos Bizarro” em toda a sua intensidade, o grupo convida o público para dois concertos intimistas no espaço da Lovers & Lollypops, nos dias 23 e 24 de abril. Conhecidos pelas suas performances ao vivo intensas e imersivas, os Sereias prometem transformar estas apresentações em experiências únicas, onde a música, a luz e o silêncio se entrelaçam, desafiando os limites da percepção e da emoção.

Com este novo trabalho, os Sereias reafirmam-se como uma das vozes mais relevantes do panorama musical alternativo português. “A Odisseia de Carlos Bizarro” não é apenas um álbum; é uma proposta de reflexão sobre o presente e uma chamada à ação para resistirmos ao conformismo de um mundo em colapso.

PORTA B — Jornalismo Cultural Independente | 17 de março de 2026

PORTA B — Perspetiva independente da nossa redação. Jornalismo cultural crítico, sem financiamento corporativo ou estatal.