NAMM Next Europe: Música, Inovação e Cooperação no Coração de Bruxelas
A NAMM NeXT Europe reuniu em Bruxelas líderes da indústria musical para debater o futuro do setor, mas levanta-se a questão: será que esta iniciativa ressoa com as necessidades e oportunidades do mercado português?
Redação PORTA B
14 de fevereiro de 2026

NAMM NeXT Europe: Uma Sinfonia de Inovação, Mas Será que Afina em Portugal?
A National Association of Music Merchants (NAMM), a incontornável organização sem fins lucrativos que verte a sua influência na indústria musical global, aterrou em Bruxelas com a primeira edição europeia da NAMM NeXT. Mais de 60 líderes empresariais e representantes de instituições europeias reuniram-se nos dias 4 e 5 de junho para, no Marriott Hotel Grand Place, debater o futuro melódico – ou, por vezes, dissonante – do setor.
Depois do sucesso da edição inaugural em Nashville, a escolha de Bruxelas como palco europeu da NAMM NeXT surge como uma estratégia compreensível. Afinal, a capital belga, coração da União Europeia, é um ponto nevrálgico para discussões que implicam regulamentação, legislação e, claro, financiamento. Mas será que esta centralidade geográfica se traduz numa centralidade de ideias para o panorama musical português?
Uma Orquestra de Perspetivas Internacionais... e Portugal?
John Mlynczak, presidente e CEO da NAMM, sublinhou a importância da colaboração para o crescimento da comunidade global de criadores musicais. A cimeira, com a sua estrutura assente em keynotes, painéis e workshops, contou com a participação de especialistas de áreas diversas, desde a economia ao comportamento do consumidor. Este cruzamento de conhecimentos é, sem dúvida, valioso. Contudo, paira a questão: qual a representatividade e o peso da realidade portuguesa nestas discussões?
A NAMM NeXT Europe teve o apoio de nove associações europeias da indústria musical, nomes como AVHN, BDMH, CAFIM, Comusica, CSFI, Dismamusica, EMIA, MIA e SOMM. Uma lista impressionante, é certo, mas é crucial que estas entidades reflitam a diversidade do panorama musical europeu e que não se limitem a representar os interesses dos grandes mercados. A voz dos pequenos e médios empresários portugueses, muitas vezes esmagada pela dimensão dos gigantes da indústria, precisa de ser amplificada.
O Eco da NAMM NeXT em Território Lusitano
A grande missão da NAMM NeXT é criar uma comunidade global mais coesa e resiliente. James Gordon, CEO da Audiotonix, enfatizou o impacto positivo de juntar perspetivas internas e externas da indústria. Jacob Funk Kirkegaard, especialista em comércio internacional, destacou a dimensão prática do encontro.
No entanto, é legítimo questionar se este evento, por muito bem intencionado que seja, não corre o risco de se tornar mais um fórum de discussão distante da realidade dos agentes musicais portugueses. A implementação de políticas e estratégias debatidas em Bruxelas enfrenta, muitas vezes, obstáculos burocráticos e desfasamentos contextuais que as tornam ineficazes em Portugal.
É imperativo que a NAMM NeXT, nas suas futuras edições e iniciativas, estabeleça pontes concretas com o tecido empresarial e criativo português. A simples presença de representantes portugueses não garante que as suas necessidades e desafios sejam devidamente considerados. É preciso um esforço proativo para envolver os agentes locais na definição de prioridades e na implementação de soluções.
Desafios Globais, Soluções Locais
A indústria musical portuguesa, tal como a global, enfrenta desafios complexos. A pirataria, a desvalorização da música em plataformas de streaming, a dificuldade de acesso a financiamento e a falta de apoio à internacionalização são apenas alguns dos problemas que afetam os músicos e as empresas do setor.
A NAMM NeXT pode ser um catalisador para a mudança, mas apenas se conseguir traduzir as suas ambições globais em ações concretas a nível local. É fundamental que se criem programas de apoio específicos para as empresas portuguesas, que se incentive a colaboração entre artistas e produtores de diferentes países e que se promova a música portuguesa além-fronteiras.
Um Futuro Afinado ou Dissonante?
A NAMM NeXT representa um investimento estratégico no futuro da música a nível global. No entanto, o seu sucesso em Portugal dependerá da sua capacidade de se adaptar às especificidades do mercado local e de envolver ativamente os agentes portugueses na construção de um futuro mais promissor para a indústria musical.
Caso contrário, arriscamo-nos a ter uma bela melodia tocada numa orquestra internacional, mas com desafinação na partitura portuguesa. E, convenhamos, Portugal tem talento e potencial para tocar em uníssono com os melhores. Falta, talvez, um maestro que saiba afinar os instrumentos e conduzir a orquestra na direção certa. Resta saber se a NAMM NeXT será esse maestro. O tempo dirá.
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